quarta-feira, 15 de outubro de 2014

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01/08/2004 - 06h26

Cabala light conquista leigos e irrita rabino

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LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de S.Paulo

Sabedoria hermética, mística judaica, à simples menção da palavra "cabala" imaginava-se a figura de um vetusto rabino, barbas longas, todo de preto. Um sábio. Sempre foi assim.

De repente, aparece Madonna, a "material girl" hipervitaminada, origem ítalo-católica, querendo ser chamada de Esther e dizendo-se cabalista. 

Aí vem a atriz Demi Moore e também se reivindica da cabala. E os lábios mais sensuais do rock and roll (já um tanto murchos, é verdade), Mick Jagger, 61, abrem-se para proclamar uma tardia conversão. Quando o show biz rendeu-se aos encantamentos da tradição hebraica (bem verdade que em nova embalagem) já era sabido: a moda chegaria logo aqui. E assim foi.

Na última quarta-feira, 35 alunos aplicados chegaram pontualmente às 18h30 ao prédio em Pinheiros (zona oeste de São Paulo), para assistir a mais uma aula do curso Cabala 2, ministrado pelo rabino Shmuel Lemle.

Começa a pregação. "Por que está escrito na Torá [designação judaica do Velho Testamento] que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo? Alguém acha que Deus ficou cansado e pensou: tenho de ir para Trancoso, descansar? É claro que não." Trancoso, o balneário descolado da Bahia? Num sermão?

Engenheiro formado pela Pontifícia Universidade Católica, solteiro, sem filhos, Shmuel é herdeiro do rabino Henrique Lemle, já morto, que foi referência religiosa do Rio de Janeiro, "uma espécie de Henry Sobel carioca", define o filho, numa alusão ao presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista. Alusão estranha, como se verá mais adiante.

É com metáforas simples, com parábolas e brincadeiras que o carismático Shmuel Lemle conta as histórias bíblicas e transmite os ensinamentos da cabala. Não é tarefa para qualquer um.

Segundo a mística judaica, as 22 letras do alfabeto hebraico são (e só elas são) as próprias letras que o Criador usou para gerar o Universo. É necessário entendê-las, para atinar os desígnios do Criador, certo? Errado. Para quem não conhece o hebraico, basta "scannear" as letras com olhos, como diz Lemle. "E vem a Luz."

Na origem dessa versão pop da cabala está o rabino Rav Berg, que dá aulas no Kabbalah Centre de Los Angeles, Centro de Estudos da Cabala, com mais de 50 sedes em todo o mundo. Duas delas estão no Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo), fundadas por Lemle, que teve aulas com Berg.

Foi o Kabbalah Centre americano que recrutou Madonna e Demi Moore. É o Centro de Cabala de Lemle que recrutou, ao sul do Equador, as versões delas: a apresentadora de TV Glória Maria e a cantora Marina Lima.

O poder de marketing dessas conversões é imenso. Nunca, desde que foi criada há milhares de anos, falou-se tão abertamente sobre a cabala. Nunca foi tão fácil tornar-se cabalista.

Reza a tradição que o misticismo judaico é para poucos. "Está no Talmud [conjunto de interpretações das leis mosaicas] que é necessário ter mais de 40 anos para estudar a cabala", lembra o rabino Sobel. "É preciso amadurecer, ter sólidos conhecimentos judaicos", diz Sobel, ele mesmo um estudioso da cabala. Lemle, lembre-se, tem apenas 36 anos.

A oposição do rabinato não incomoda a turma de alunos de Lemle. Para fazer o curso Escada da Transformação, dez aulas ministradas às quartas-feiras, das 20h30 às 22h30, pagam-se R$ 500. É pré-requisito obrigatório ao Escada ter feito os cursos Cabala 1 e Cabala 2. No Cabala 1, são oito aulas a um custo de R$ 400. No Cabala 2, aprende-se Reencarnação Básico (sim, o judaísmo é reencarnacionista) em dez aulas. Pagam-se R$ 500.

Na última quarta-feira, 55 alunos do Escada ouviam Lemle contar a história bíblica de Yossef Hatzadik, José, o Justo, e de como ele resistiu a fazer sexo com uma linda mulher por respeito ao marido dela.

Depois do relato empolgante (mesmo!), Lemle deitou falação sobre o controle das emoções e a liberdade. E defendeu as restrições: não é bom usar drogas. Não se deve manter relações sexuais durante o período menstrual da mulher. O único método contraceptivo aceitável é a pílula anticoncepcional. Camisinha, nem pensar. Aborto é inaceitável, mesmo em caso de estupro. Masturbação: não pode.

A empresária Roberta Matarazzo, 61, reagiu: "Mas nem em caso de estupro o aborto é permitido?" Calmo, o rabino respondeu que mesmo da lama pode nascer uma flor delicada. Convenceu a aluna.

Conservador? Careta? Pouco importa. A empresária Natalie Klein, 28, dona da loja NK Store e neta do rei do varejo, Samuel Klein, das Casas Bahia, acompanha Lemle há um ano e meio. Judia, sempre foi de freqüentar sinagoga. Segue as tradições.

Natalie tornou-se cabalista depois de perder para o câncer um irmão querido, há três anos. "Encontrei alívio e conforto na cabala", diz ela, que hoje realiza um trabalho voluntário voltado para crianças com câncer.

Todas as quintas-feiras, Natalie está no Projeto Felicidade, que proporciona entretenimento aos pequenos doentes. "Só isso faz valer a dor que eu sofri com a perda do meu irmão."

Que as perdas alimentam a fé, é sabido. Com a nova cabala não poderia ser diferente. Foi depois de se separar do estilista Tufi Duek, dono da grife Forum, que Nídia Duek se aproximou da cabala. Católica, ela converteu-se ao judaísmo aos 15 anos, quando conheceu o marido com quem ficou casada por 21 anos.

Nídia trabalhava todos os dias colada ao marido. Separada, as duas filhas já crescidas e independentes, sentiu o peso da solidão. Por não aceitar o papel de vítima da separação, de "coitadinha", resolveu partir para a cabala do rabino Lemle. Hoje, estuda o tempo todo arte, filosofia e, claro, cabala. Até o meio do ano que vem, volta a trabalhar no ramo da moda. "Me aguarde", promete.

Sobre tantas dores e as esperanças despertadas nos alunos de Lemle, o rabino Sobel teoriza: "Talvez essa cabala light sirva para preencher a carência espiritual de alguns, mas não deixa de ser um pseudomisticismo. Isso não é cabala. É marketing vulgar. É superstição. É deturpação da religião. É irreligião." Pode ser.

Por via das dúvidas, vão abaixo algumas regras que Natalie Klein segue, inspiradas na cabala. Que mal têm, se consolam?

- "Nunca conte seus sonhos a ninguém." (Adeus, Freud!)
- "Todos os dias, ao acordar, antes de mais nada, lave as mãos."
- "Nunca tome o vinho puro. Misture-o com água."
- "Use a fita vermelha no pulso esquerdo."

Especial

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