Policiais bloqueiam passeata de judeus extremistas no acesso ao Muro das Lamentações

Ao menos 150 judeus extremistas marcharam na quinta-feira à noite em Jerusalém para reivindicar seu direito de rezar na Esplanada das Mesquitas, mas foram impedidos pelos policiais antes mesmo de chegar ao Muro das Lamentações - constatou um jornalista da AFP.
Composto majoritariamente de jovens religiosos, o grupo pretendia marchar "até os portões do monte do Templo" - nome dado pelos judeus à Esplanada das Mesquitas -, o que dificilmente seria permitido pela polícia.
A multidão já havia se resignado a chegar apenas até o Muro das Lamentações, o que também não foi permitido. Os extremistas foram bloqueados já no posto de controle que dá acesso ao monumento.
Sob bandeiras israelenses, os manifestantes partiram do centro Menachem Begin. Foi lá que Yehuda Glick, uma das figuras emblemáticas da reivindicação pelo direito de orar na Esplanada das Mesquitas, foi gravemente ferido a bala na semana passada. O palestino suspeito de cometer o ataque foi morto no dia seguinte pela polícia.
Vários manifestantes expressaram sua determinação de não se deixar intimidar, mas a passeata acabou seguindo pelo bairro judeu da Cidade Velha. Lá, os riscos de confrontação com palestinos eram considerados menores.
A Esplanada das Mesquitas é o terceiro lugar santo do Islã. Também é venerada pelos judeus como o local do segundo Templo judaico destruído pelos romanos no ano 70, cujo único vestígio é o Muro das Lamentações. Os judeus mais ortodoxos pretendem reconstruí-lo.
Jerusalém Oriental, parte palestina da cidade anexada e ocupada por Israel, vive em meio à tensão há vários meses, que se intensificou nas últimas semanas.
Nove pessoas, incluindo quatro autores ou supostos autores de ataques, foram mortos desde julho nesta zona.
Neste contexto, passeata acirrou os ânimos e foi vista como mais uma provocação.
"Queremos um Estado judeu real. Nós queremos ver o Templo (reconstruído) no Monte do Templo. Queremos ver Jerusalém reconstruída", proclama o cartaz da manifestação.
Desafio para Netanyahu
Os extremistas judeus têm indignado os muçulmanos ao reclamar o direito de rezar na Esplanada das Mesquitas, que eles reverenciam como sendo o local do Templo judeu destruído pelos romanos em 70 d.C., e cujo único vestígio é o Muro das Lamentações.
Suas reivindicações cada vez mais contundentes alarmam palestinos e jordanianos, que administram o local. Eles se preocupam com o risco de o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ceder à pressão e dar garantias à extrema-direita, em vista das eleições de 2015.
Eles também denunciam o crescente número de visitantes judeus na esplanada e suas provocações. Eles se ressentem das restrições impostas aos muçulmanos, como o fechamento completo da Esplanada na semana passada.
Netanyahu já expressou que não tem intenção de mudar o status quo, que afirma que os judeus estão autorizados a visitar a Esplanada, mas não orar.
À frente de um governo de coalizão instável, Netanyahu trabalha para conter os ânimos.
Colonização de territórios palestinos, guerra na Faixa de Gaza, detenções, assédio, desemprego... Uma combinação de fatores que contribuem para o aumento das tensões e que fazem temer uma terceira Intifada. Mas a Esplanada das Mesquitas e a mesquita de Al-Aqsa representam uma verdadeira "linha vermelha" para os palestinos.
Jovens palestinos entraram em confronto com a polícia israelense novamente na quarta-feira, que chegou a entrar na mesquita de Al-Aqsa.
Atropelamentos
Poucas horas antes, um palestino atropelou um policial e vários transeuntes antes de ser morto.
Entretanto, o exército recuou nesta quinta sobre um outro incidente que inicialmente foi chamado de ataque. Peter Lerner, porta-voz militar, sugeriu que os fatos ocorridos à noite perto do assentamento de Gush Etzion, na Cisjordânia ocupada, onde um motorista colidiu contra um grupo de soldados israelenses poderia ser um acidente. É o que diz o motorista, um palestino de 23 anos, que se entrou às autoridades.
Um dos soldados feridos está em estado crítico.
Os confrontos que se espalharam quarta-feira em vários bairros de Jerusalém Oriental continuaram nesta madrugada. A polícia montou bloqueios nas estradas em vários bairros e forças adicionais foram implantadas nos principais cruzamentos, de acordo com um fotógrafo da AFP.
As forças de segurança também começaram a dispor blocos de concreto para proteger os pontos de trem de novos ataques com carros.
Desde o primeiro ataque em 22 de outubro, "188 pessoas, incluindo 71 menores, foram presos" em Jerusalém Oriental, informou a polícia. Desde o verão, quase mil palestinos foram presos.
Para o primeiro-ministro israelense, a situação em Jerusalém também é um desafio diplomático. A Jordânia, um dos dois únicos países árabes a ter um tratado de paz com Israel, convocou seu embaixador.
Amã expressou sua intenção de acionar a ONU para deter as ações israelenses "graves e escandalosas" na Esplanada.
Mas Netanyahu garantiu ao rei jordaniano Abdullah II que Israel não planeja alterar o status quo de Al-Aqsa.
Neste contexto, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, acusou membros da extrema-direita de fazer um "uso político cínico de uma situação particularmente complexa".