quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

É ou seria promovido e permitido pelo Hamas ou Fata? O óbvio cotidiano responde NÃO. A paz é possível assim como cabe a Israel aministrar e defender a dimensão da sua realidade. Terras e títulos disputados por lideranças nunca trarão paz alguma.

Palestino criado para odiar Israel e que foi baleado aos 7 cria 'turismo da paz'

Aziz Abu Sarah conta ao iG como superou o ódio contra seus "inimigos israelenses" e agora dissemina a tolerância

Carolina Garcia |  - Atualizada às 
Em suas lembranças da infância, o palestino Aziz Abu Sarah jogava pedras em carros com os sete irmãos. A atividade quebrava a monotonia do vilarejo al-Eizariya, ao leste de Jerusalém, que não era atrativo para crianças. O que ele não sabia é que deveria atirar as pedras apenas em carros israelenses. Nascia assim o ódio pelo outro lado do território. E a morte precoce do irmão mais velho, preso pelas forças israelenses, reforçou a figura do inimigo. Anos depois, Abu Sarah aprendeu a superar a raiva. Ele atua como ativista internacional e usa o turismo para derrubar os muros do ódio que divide palestinos e israelenses.
O empresário e ativista falou com exclusividade ao iG sobre a companhia de turismo Mejdi Tours, fundada com dois amigos judeus, que busca criar rachaduras no muro de medo e ignorância entre os dois povos. “Os nossos sentimentos ruins surgem de experiências reais de guerra. Eu fui baleado quando tinha sete anos, perdi meu irmão e vizinhos. A gente carrega isso para sempre. Ainda assim, as diferenças devem coexistir”, explica.
Aziz Abu Sarah em apresentação da Mejdi Tour no TED Talk, no Canadá, divulgado em janeiro
Foto: Reprodução / Facebook
Aziz Abu Sarah em apresentação da Mejdi Tour no TED Talk, no Canadá, divulgado em janeiro
Em sete países, a empresa surpreende ao oferecer o passeio “Interfaith”, unindo de forma inédita os territórios de Israel e Palestina com dois guias, vítimas do conflito que representam a sua origem aos visitantes. Um dos guias israelenses é Rami Elhanan, que teve a filha de 14 anos morta em um ataque suicida em Jerusalém, em 1997.
“Os guias palestino e israelense explicam a história, arquitetura e conflito com perspectivas totalmente diferentes. É impressionante vê-los interagindo e a amizade que mantém fora do trabalho. Eles criaram laços para a vida inteira”, defendeu. Segundo Abu Sarah, visitantes cristãos, muçulmanos, judeus são transformados pelo choque de ver dois indivíduos – destinados ao ódio – debatendo um tema polêmico sem brigas. “A relação deles impressiona e muitos pensam: ‘Se eles podem discordar e ainda ser amigos, eu também posso’. O turismo é a melhor maneira para conectar pessoas." O passeio pode ser feito em até dez dias e custa R$ 2,5 mil, mas o valor é negociável. A ideia surgiu da imersão que a família de Abu Sarah passou com judeus.
Com atuações semelhantes no Afeganistão e na Síria, Abu Sarah atualmente divide o seu tempo como ativista internacional entre Jerusalém e Washington D.C., nos EUA, onde atua como diretor-executivo do departamento de Religiões, Diplomacia e Resolução de Conflitos da Universidade de George Mason. Além disso, escreve reportagens e produz documentários para a National Geographic sobre zonas de conflito. Ele reconhece, no entanto, que a sua transformação de manifestante palestino para ativista internacional não foi tranquila.
“Israelenses que não usam fardas”
Para conseguir entrar em uma faculdade e conseguir um bom emprego em Jerusalém, Abu Sarah precisou enfrentar aulas de hebreu. "Reconheço que fui obrigado a tomar esse passo. Antes das aulas, pensava: ‘Não vou falar com ninguém. Não estou aqui para fazer amigos’. A primeira semana foi horrível, me senti extremamente deslocado." Entre 20 alunos, Abu Sarah era o único palestino da sala de aula. Uma fala de sua professora, no entanto, mudou a forma de encarar o conflito. "Ela era muito mente aberta e discutia política dentro da sala de aula, o que era raro. Até que um dia ela falou: ‘Palestinos e Israelenses merecem os mesmos direitos, somos iguais’. Isso me deixou sem palavras."
Era a primeira vez em 18 anos que o jovem palestino trocava algumas palavras com israelenses que não eram soldados. “Olhava com surpresa para tudo ali. Afinal, eles eram israelenses e não usavam fardas. E alguns eram amigáveis. Isso me confundiu porque a minha experiência de vida me mostrava o extremo oposto. Fiquei curioso." A curiosidade do estudante assustou a sua família palestina e tradicional. “Meus pais ficaram chocados quando comecei a fazer amizades verdadeiras. Levou muito tempo, mas eles aceitaram meus amigos e ali começou um processo de transformação”.
Durante um encontro com judeus pouco tempo depois, o pai de Abu Sarah se mostrou curioso sobre o Holocausto, evento histórico que não é ensinado aos palestinos na escola, segundo o ativista. “Ele apenas se levantou e perguntou: ‘Me falem sobre o Holocausto. É real ou mentira?’ A sua pergunta chocou muita gente, mas um se levantou e propôs uma excursão aos museus e memoriais. Depois disso, passamos um dia visitando e aprendendo sobre essa capítulo horrível da história." O efeito foi instantâneo e promoveu a conexão de pessoas que antes não se falavam e mantém laços até hoje, conta o ativista. E eles repetiram o evento, mas dessa vez sobre a história palestina.
Mãe de Abu Sarah (à esq.) apresenta a judeus a comida palestina. 'Foi emocionante ver a interação'
Foto: Arquivo pessoal
Mãe de Abu Sarah (à esq.) apresenta a judeus a comida palestina. 'Foi emocionante ver a interação'
“Ali não comparamos uma história com a outra para ver quem sofreu mais. Esses encontros mostraram a todos que não conversávamos de histórias do passado, mas discutíamos fatos que tinham acontecido com pessoas. Aí você não os enxerga como inimigos, mas como companheiros traumatizamos e que compartilham o seu sofrimento”, explicou. Os eventos serviram de inspiração para Abu Sarah criar com dois amigos judeus a Medji Tour.
O fim do conflito
Ele se define como uma pessoa realista ao dizer que o conflito entre Israel e Palestina irá acabar. Suas experiência em zonas de conflito no Oriente Médio revelam que a real pergunta não é se a guerra irá acabar, mas quando isso irá ocorrer. “O que eu faço hoje é para influenciar a resposta dessa pergunta. Eu olho para o nosso trabalho e vejo que estou ajudando a colocar um fim nessa disputa." Para Abu Sarah, as diferenças podem e devem coexistir e ainda cita o exemplo do Brasil como um país bem sucedido na convivência com as diferenças.
“Quando alguém, independente de sua origem, decide matar alguém, ele está errado. Ainda assim não podemos odiar o outro que age errado e tem perfil violento. Ele é vítima do medo, ignorância e raiva”, diz Abu Sarah. A saída, segundo ele, é divulgar que a maioria do povo israelense e palestino busca viver com liberdade, segurança e paz. E continua: “Se superamos isso, as mortes não existirão. Talvez [o conflito]
não acabe no próximo mês, nem no próximo ano. Mas se acabar dez anos antes, nós já salvaríamos milhares de vidas inocentes”, conclui.