terça-feira, 6 de janeiro de 2015

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Uma brasileira contra o nazismo

Coragem - Ignorando ordens da ditadura Vargas e o risco de ser descoberta pelos nazistas, Aracy salvou dezenas de judeus do Holocausto - Foto: Arquivo pessoal/IEB
Coragem – Ignorando ordens da ditadura Vargas e o risco de ser descoberta pelos nazistas, Aracy salvou dezenas de judeus do Holocausto – Foto: Arquivo pessoal/IEB
Mesmo contrariado, por conta de sua formação teatral, desde 1996, quando foi convidado a uma breve participação em O Rei do Gado, o ator paulistano Caco Ciocler é sucesso a cada incursão nos folhetins globais. De ascendência judaica, por meio de uma bela história sobre resistência ao horror do Holocausto, o ator tem agora credenciais para também trafegar no meio cinematográfico como diretor.
Ciocler acaba de fazer exibições privadas de Esse Viver Ninguém me Tira. Seu primeiro longa-metragem, o filme reconstitui a história de Aracy Guimarães Rosa, mulher do escritor João Guimarães Rosa e personagem fascinante, que se tornou símbolo da luta contra o antissemitismo.
Nascida em 1908, na cidade de Rio Negro, no Paraná, mas criada em São Paulo, aos 25 anos Aracy desquitou-se amigavelmente (no Brasil da época ainda não havia o divórcio) do industrial Johan Van Tess e partiu para Hamburgo, na Alemanha, acompanhada de Eduardo Tess, filho do casal, à época com 5 anos.
Aracy chegou sem ocupação e foi morar na casa de uma tia. Mas logo pediu ajuda do amigo Macedo Soares, então ministro das Relações Exteriores, para conseguir trabalho em algum órgão governamental. Por conta do domínio de quatro idiomas (português, inglês, alemão e francês), Aracy foi nomeada para trabalhar na divisão de passaportes do Consulado Brasileiro em Hamburgo.
Era 1935 e a ascensão nazista fechava o cerco contra os judeus. Muitos já haviam sido expulsos de universidades, de ocupações públicas e das Forças Armadas. Outros tinham sido obrigados a entregar seus negócios para arianos. Nesse cenário de terror, muitos judeus desejavam deixar a Alemanha e recorriam aos consulados de diversos países para estudar possíveis fugas do Terceiro Reich. Em 1938, durante o Estado Novo alinhado com a Alemanha, o presidente Getúlio Vargas fez vigorar a circular secreta no 127, que restringia a entrada de judeus no Brasil e impunha limites reduzidíssimos ao número de vistos concedidos. Em um gesto humanista – e de extremo risco –,
Aracy ignorou a recomendação e fez o impossível para driblar o então cônsul Joaquim Souza Ribeiro. Foi também nesse período que Aracy conheceu João Guimarães Rosa, à época cônsul adjunto em Hamburgo. Ao saber das manobras mirabolantes de Aracy para obter os vistos de Ribeiro e salvar inúmeras famílias, o escritor e diplomata se apaixonou por ela.
No filme, Ciocler esclarece que o romance entre os dois se intensificou após uma série de encontros à procura de um apartamento para ele, que culminaram em uma viagem do futuro casal a Roma. Ciocler, que narra o filme e entra em cena em vários momentos, faz um adendo poético para observar que a palavra “Roma” é anagrama de amor.
Reconhecimento - Inscrição do nome de Aracy no Yad Vashem, memorial dedicado aos mártires e heróis do Holocausto. Passaporte onde constam as datas em que ela viveu na Alemanha nazista. O diretor Caco Ciocler no Muro das Lamentações - Foto: Frame/Esse Viver Ninguém Me Tira
Reconhecimento – Inscrição do nome de Aracy no Yad Vashem, memorial dedicado aos mártires e heróis do Holocausto. Passaporte onde constam as datas em que ela viveu na Alemanha nazista. O diretor Caco Ciocler no Muro das Lamentações – Foto: Frame/Esse Viver Ninguém Me Tira
Cúmplices, Aracy contou com a ajuda de Guimarães Rosa, nos meses de janeiro de 1939 a 1941, época em que Souza Ribeiro entrava em férias e o adjunto assumia o comando. Impossível precisar quantos judeus foram salvos pelo casal (estima-se em cem), pois Aracy não deixou vestígios de sua faceta heroica.
Tanto que Ciocler investigou as 48 caixas com documentos deixados por ela, disponíveis no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), e nada encontrou. Perante outro grande problema, a proibição dos familiares do autor de Grande Sertão Veredas (aliás, dedicado a ela com a frase “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”) de mencionar qualquer fato extraído da documentação histórica de Guimarães Rosa, Ciocler construiu uma narrativa sensível, baseada no cruzamento de depoimentos de pessoas que conviveram com Aracy e dos familiares daqueles que foram salvos e, hoje, vivem em paz no Brasil.
Entre os deponentes estão velhos, jovens, adultos e crianças. Personagens como Dona Nena, enfermeira que conviveu com Aracy em seus últimos dias (ela morreu em março de 2010, aos 101 anos), o primogênito Eduardo Tess, o ex-deputado federal Plínio de Arruda Sampaio (morto em julho último, ele foi grande amigo de Aracy) e Dona Bela Hessa.
Figura central para o reconhecimento em Israel da contribuição de Aracy para o povo judeu, Dona Bela intercedeu para que ela fosse homenageada no Yad Vashem, memorial dedicado aos mártires e heróis do Holocausto, em 1982, com o título “Justa entre as Nações”. Aracy, que também é conhecida pela alcunha “Anjo de Hamburgo”, casou-se com Guimarães Rosa no México, em 1942, ocasião em que ambos retornaram ao Brasil. 
Ciocler dribla a ausência de informações e persegue os caminhos de Aracy – ele viajou a diversos países – para que o espectador possa criar sua própria interpretação de quem foi essa grande mulher. Ao jogar luz sobre essa história pouco conhecida pelos brasileiros, Esse Viver Ninguém me Tira emociona. O filme entrou em cartaz no dia 11 de dezembro, nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.
Na noite da terça (6), o canal televisivoArte1 exibe o documentário às 20h30.
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