Livro desvenda as espetaculares ações do esquadrão da morte de Israel

Obra de especialista em segurança e terrorismo torna pública a guerra nas sombras travada pelo Kidon, os tenazes assassinos do grupo de Operações Especiais do serviço secreto israelense
Para o Mossad, a execução de um terrorista não é política, mas a ferramenta do Estado para sua dissuasão / www.ericfrattini.com
Para o Mossad, a execução de um terrorista não é política, mas a ferramenta do Estado para sua dissuasão / www.ericfrattini.com
Frederico Vitor
Os 19 capítulos do livro “Mossad: Os Carrascos do Kidon”, de Eric Franttini, podem ser facilmente confundidos com excelentes roteiros de filmes de megaproduções hollywoodianas. Porém, as espetaculares tramas contidas na obra não são ficcionais. Pelo contrário, trata-se das mais fabulosas ações — de que se tem notícia — que confirmam que o Mossad, o temido Instituto de Inteligência e Operações Especiais de Israel, por meio de seu esquadrão de assassinos, não conhecem limites. Não há fronteiras nacionais e soberanias de países quando o assunto é eliminar, com anuência do primeiro-ministro, qualquer um que seja considerado inimigo do Estado judeu.
A obra de 350 páginas do espanhol-peruano especialista em segurança e terrorismo Eric Frattini conta algumas histórias de tirar o fôlego dos mais de 40 anos de existência do longo braço de Israel. O li­vro se concentra nas façanhas espetaculares do Kidon — palavra em he­braico que significa baioneta —, a su­bunidade de assassinos da Metsada (Grupo de Operações Especiais do Mossad), encarregado de sequestros e as­sassinatos de nazistas genocidas fugitivos, terroristas palestinos, contrabandistas de armas, líderes extremistas muçulmanos, cientistas projetistas de armas e magnatas que mantinham ne­gócios lesivos aos interesses de Israel.
É recorrente, a cada final de um capítulo, em que é revelada uma operação impetrada pelo Kidon, seus alvos voarem em pedaços, morrerem por envenenamento, estrangulamento, afogamento e execução com tiro na nuca ou na boca. O sequestro é o mais brando dos atos de neutralização de seus alvos. Foi o que ocorreu com Mordechai Vanunu, ex-técnico nuclear israelense que trabalhava na central de Dinoma, no deserto de Neguev, que revelou ao mundo que Israel tinha bombas atômicas.
Nem só as ações bem sucedidas que envolveram refinadas técnicas de assassinato foram relatadas no livro. A obra também traz à tona algumas missões fracassadas, além das contradições políticas que envolvem o Instituto — termo comumente usa­do pela comunidade internacional de Inteligência para se referir ao Mossad.
Eric Frattini deixa claro que, paralelamente às guerras visíveis divulgadas, documentadas, fotografadas e televisionadas, outras guerras são travadas nas sombras, às escondidas dos olhos dos cidadãos comuns. Neste contexto, desde a década de 1960, os israelenses frequentemente se utilizam do Mossad para impor as políticas governamentais de segurança de Israel, mesmo que isso venha a implicar a eliminação de seus inimigos por meio de eficientes técnicas de execução.
Tecnologia de ponta
O livro dá detalhes das principais missões consumadas pelo Mossad
O livro dá detalhes das principais missões consumadas pelo Mossad
Entretanto, não só de força bruta se vale o Instituto. As mais avançadas tecnologias estão à disposição dos interesses estratégicos de Tel Aviv, como o software de­senvolvido pelos israelenses e vendido às agências de inteligência de nações amigas. O livro revela que o programa se tratava, na realidade, de um cavalo de troia que enviava todas as informações secretas das instituições estrangeiras de espionagem à sede do Mossad.
Há também o relato do supervírus cibernético desenvolvido pelo departamento tecnológico do Instituto. Em posse de um agente infiltrado, um pen drive foi introduzido em um dos computadores do programa nuclear iraniano possibilitando que a cyber arma frustrasse por longo tempo todos os esforços do regime dos aiatolás em desenvolver supostas armas nucleares a partir da Organização Iraniana de Energia Atômica.
O Mossad é apenas um dos vários órgãos de segurança que formam o sistema de defesa de Israel. O Instituto divide com a Aman (Serviço de Inteligência Mi­li­tar) e com o Shin Bet (Serviço Geral de Segurança, a agência israelense de contrainteligência e contraterrorismo) a responsabilidade de rastrear e eliminar todas as ameaças contra o Estado judeu. Memuneh é o nome pelo qual se conhece o diretor do Mossad e os Katsa são os oficiais de serviços especiais.
Desde sua criação, em março de 1951, o Mossad tem se dedicado a perseguir os inimigos de Israel nos mais remotos lugares do planeta. A primeira operação autorizada por um chefe de governo e confiada à época, a então unidade de Nokmin (Vin­gadores), seria levado a cabo em maio de 1960, quando o primeiro-ministro trabalhista David Ben-Gurion ordenou ao memuneh Isser Harel o sequestro e posterior transferência de Adolf Eichmann da Argentina, onde se escondia, para Israel. O alemão foi um dos principais responsáveis pela chamada Solução Final o assassinato em massa de judeus nos campos de extermínio, na Europa.
O êxito da chamada Operação Garibaldi, comandada pelo jovem Rafael Eitan, levou à criação do temível Kidon, a subunidade de assassinos da Metsada. Os integrantes do Kidon se tornariam a ponta da lança das novas vinganças de Israel contra seus inimigos com o passar dos anos. Após a Segunda Guerra Mundial e o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa, os vencedores puderam ler, nos muros das sinagogas destruídas, a seguinte mensagem por parte dos assassinados pela máquina de morte do Terceiro Reich: “Fomos assassinados. Vingai-nos. Recordai-nos”.
Kidon brasileiro
Desde então, em nome de Israel e com a autorização do primeiro-ministro, o Kidon e seus integrantes elevaram o assassinato político ao máximo nível de perfeição, graças a agentes co­mo Zvi Steinberg, um judeu brasileiro de 36 anos, capaz de estrangular um homem em questão de segundos. Di­zia-se que, um dia, entrou num carro em Praga, capital da República Tche­ca, em perseguição a um terrorista palestino, aproximou-se dele, esmagou-lhe com uma só mão a traqueia, matando-o no ato e desaparecendo depois em meio à multidão. Ninguém se deu conta da “execução” até que o veículo foi aberto e descobriram o cadáver.
Em meio às batalhas travadas nas sombras apenas os equívocos do Mos­sad são públicos. Já os triunfos devem permanecer guardados a sete chaves. Estes últimos são os que fazem com que o povo de Israel possa ir para a cama em segurança. Porém o próprio autor diz não ser correta a afirmação de Rafi Eitan, um dos kidons responsáveis por sequestrar Adolf Eichmann: “Nossa tarefa é fazer história depois de ocultá-la. No geral somos honrados, respeitamos o governo constitucional, a liberdade de expressão e os direitos humanos. Porém, entendemos também que nada se deve interpor no que fazemos”.
Mossad caçou nazistas fugitivos na América do Sul
Adolf Eichmann, capturado na Argentina, foi condenado à morte em Israel  / jewishcurrents.org
Adolf Eichmann, capturado na Argentina, foi condenado à morte em Israel / jewishcurrents.org
No início da década de 1960 ocorreram as primeiras grandes operações do Mossad e elas transcorreram na América do Sul. Os agentes israelenses conseguiram detectar a presença do dirigente nazista e responsável pela logística da Solução Final, Adolf Eichmann, na Argen­tina. O Instituto descobriu graças a um depoimento de outro criminoso de guerra preso na Áustria que Her­bert Cukurs, integrante da SS — tropa de elite da Alemanha nazista — na Letônia e responsável pelo assassinato de 30 mil judeus no gueto de Riga, estava morando no Brasil com sua família.
Eichmann chegou a Buenos Aires em 1950. Seu documento de identidade foi expedido pela polícia argentina em 3 de agosto daquele ano, assumindo a identidade de Ricardo Klement. A equipe do Mossad na Argentina descobriu que a mulher do nazista, Vera Eichmann, tinha mudado seu nome para Verônica Liebl. Foi levantado que o criminoso de guerra se sentia seguro em seu refúgio argentino, escondido atrás da fachada construída à base de mentiras e documentos falsos.
Eichmann na Argentina
Herbert Cukurs, o Carrasco de Riga, foi executado pelo Mossad no Uruguai / Herbert Cukurs, o Carrasco de Riga, foi executado pelo Mossad no Uruguai
Herbert Cukurs, o Carrasco de Riga, foi executado pelo Mossad no Uruguai / Herbert Cukurs, o Carrasco de Riga, foi executado pelo Mossad no Uruguai
Final de 1959, um relatório da Central de Inteligência argentina afirmava que Ricardo Klement foi visto com um antigo nazista de alto grau hierárquico nas vizinhanças de La Gallareta, na Província de Santa Fé. Tratava-se de Josef Mengele, o “Anjo da Morte” de Auschwitz. Men­gele foi oficial médico chefe da principal enfermaria do campo de Bir­ke­nau, sendo localizado em Bue­nos Aires por agentes do Mossad. Ele fugiu para o Paraguai e depois para o Brasil. O alemão morreu por afogamento em 1979 na cidade de Bertio­ga, interior de São Paulo, com a identidade falsa de Wolfgang Gerhard.
Com todas as provas em mãos que apontavam para o paradeiro de Eichmann na Argentina, foi dado o sinal vede do primeiro-ministro israelense para sequestrá-lo e trazê-lo para Israel para que pudesse ser julgado. A missão consistia em capturá-lo e tirá-lo da Argentina em um avião da El Al — companhia aérea israelense — no qual o compartimento de cargas da aeronave transportaria uma cela especialmente construída para que o ex-dirigente nazista que viajasse encarcerado até Israel. O voo também levaria Abba Eban, o ministro de Relações Exteriores de Israel, que viajaria até Buenos Aires na ocasião das comemorações de centésimo quinquagésimo aniversário da Inde­pendência da Argentina.
O homem que na Segunda Guer­ra Mundial organizou o transporte de milhões de judeus para o extermínio nos campos de concentração foi capturado por agentes do Mossad em plena rua, quando descia do ônibus quando retornava do trabalho na fábrica da Mercedes-Benz. Agarrado por três kidons e metido num carro, o carrasco nazista foi transportado até um apartamento de segurança máxima vigiado por uma unidade de operações especiais. Dias depois, o antigo integrante da SS era colocado no compartimento de cargas do avião da companhia aérea israelense e posto dentro de uma jaula.
Eichmann reapareceu somente perante um tribunal de Israel, numa grande caixa de vidro blindada. Ele foi julgado entre 2 de abril e 14 de agosto de 1961. Condenado à morte, foi enforcado na prisão de Ramallah, entre 31 de maio e 1ª de junho de 1962. O antigo integrante da SS teve o pescoço quebrado durante seu enforcamento e o odor de sua defecação inundou toda a sala do patíbulo. Talvez Adolf Eichmann tivesse experimentado a mesma sensação de medo antes de falecer que a sentida por milhões de pessoas antes de entrar numa câmara de gás.
Carrasco de Riga
Depois da operação que levou Eichmann à condenação em Israel, os esforços do Mossad se voltavam para Herbert Cukurs, apelidado de Carrasco de Riga. O nazista letão foi acusado de matar pessoalmente quase 30 mil judeus, homens, mulheres e crianças, na capital da Letônia. Um de seus divertimentos era deter mulheres jovens obrigando-as a se despirem no meio da rua e a saírem correndo, enquanto eram perseguidas por disparos perto dos pés. Muitas das vítimas sofreram amputação na altura do calcanhar, em consequência de tiros mal calculados provenientes das metralhadoras de Cukurs.
Diferente de Eichmann, o Carrasco de Riga vivia sem disfarces no Brasil e dava entrevistas para jornais sem nenhuma preocupação. Ele chegou a morar no Rio de Janeiro, no famoso bairro de Copacabana, graças ao dinheiro roubado dos milhares de judeus que o próprio executou durante a ocupação nazista na Letônia. Preocupado pelo que ocorreu com Eichmann, ele foi pressionado a se mudar juntamente com a família para São Paulo.
No interior paulista o Carrasco de Riga tinha vários negócios e uma grande fazenda com mais de 120 mil pés de banana. Segundo o autor, o nazista letão recebia proteção do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que concedeu-lhe licença para portar armas. Além disso, quem fazia sua segurança era um antigo assassino profissional e guarda-costas do presidente Juscelino Kubitschek.
Para pegá-lo, o Mossad destacou Anton Kunzle, que iria ao encontro de Cukurs, se dizendo um homem de negócios austríaco interessado em ser sócio do Carrasco de Riga em investimentos no Brasil. Além disso, o agente disfarçado teria que sustentar a fictícia história de que teria sido um ex-oficial da Wehrmacht na Frente Russa para não levantar maiores suspeitas e ganhar a confiança do alvo.
Kunzle avaliou que seria difícil matar Cukurs no Brasil, por isso conseguiu que o criminoso de guerra letão fosse ao Uruguai, com o pretexto de, juntos, fecharem negócios em sociedade em Montevidéu. Na capital uruguaia, quatro kidons foram destacados para a operação. Atraído por Kunzle até uma casa no bairro de Carrasco, Cukurs ao adentrá-la foi apanhado pelos agentes do Mossad com um fio de aço à volta do pescoço, enquanto outros dois tentavam segurar os braços.
Apesar dos seus 65 anos, Herbert defendia-se como um animal selvagem encurralado. Durante a luta corporal, o Carrasco de Riga levou a mão ao bolso para tentar tirar uma pequena arma. Com um só golpe, um kidon conseguiu tirar uma pequena pistola Beretta das mãos do prisioneiro nazista, porém ela disparou atingindo a mão do agente israelense.
Outro kidon pegou um martelo e bateu com ele na cabeça de Cukurs, jorrando sangue em abundância manchando um dos carpetes da sala. Porém, o plano original era neutralizá-lo, não matá-lo. Eles tinham planejado formar uma espécie de tribunal para ler as acusações que o Estado de Israel tinha contra ele. Tarde demais. Um kidon colocou o cano com silenciador da pistola na nuca e disparou duas vezes.
As duas balas acabaram com a vida de Herbert Cukurs, o “Carrasco de Riga”, ou “Carniceiro de Riga”, no dia 23 de fevereiro em 1965. Seu corpo foi encontrado dias depois, pela polícia uruguaia, em adiantado estado de decomposição dentro de um baú. Junto ao cadáver foi encontrado um veredito assinado por “aqueles que nunca esquecem”.
Tragédia nas Olimpíadas de Munique: caçada ao Setembro Negro
Ali Hassan Salameh financiou e liderou o grupo terrorista Setembro Negro /  margaridasantoslopes.com
Ali Hassan Salameh financiou e liderou o grupo terrorista Setembro Negro / margaridasantoslopes.com
Até a operação que sequestrou Adolf Eichmann e que eliminou Herbert Cukurs, o Carrasco de Riga, o Mossad tinha voltado sua energia em capturar ou matar nazistas fugitivos. Contudo, outras ameaças perigosas que confrontavam diretamente o Estado hebreu surgiram no horizonte. A primeira ação dos novos inimigos de Israel foi um drama transmitido pela televisão em nível global: o assalto pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro à delegação de Israel na Vila Olímpica dos jogos de Munique, em 1972, que terminou com a morte de 12 atletas judeus.
Liderado por Ali Hassan Sala­meh, chamado de Príncipe Verme­lho, o principal líder do Setembro Negro sabia que os Jogos Olímpicos seriam transmitidos pelas redes de televisão em caráter mundial. Para causar impacto, o terrorista arregimentou um grupo de oito extremistas que foram treinados na cidade de Trípoli, na Líbia. Os fuzis Ak-47 utilizados na ação violenta tinham sido armazenados numa bilheteria da estação central de Munique.
Às 22h15 do dia 5 de setembro de 1972, os oito terroristas do Setembro Negro renderam nove reféns israelenses e deixaram a Vila Olímpica a bordo de dois helicópteros da polícia alemã, o qual foi exigido para impetrarem fuga. As aeronaves se dirigiram a oeste de Munique, em um pequeno aeroporto no qual atiradores de elite alemães esperavam sua chegada. Ao aterrissar houve um intenso tiroteio entre os terroristas e policiais alemães, no qual dois extremistas morreram juntamente com um sargento da polícia.
Após um breve cessar fogo, um terrorista árabe lançou uma granada de mão para dentro de um dos helicópteros matando cinco israelenses que estavam a bordo como reféns. Os outros quatro atletas restantes morreram ao serem atingidos por rajadas de metralhadora disferidas por um dos terroristas. Terminava assim, de forma trágica, a ação do Setembro Negro em Munique.
Golda Meir, a metódica primeira-ministra israelense, ativou o Kidon da Metsada para vingar os atletas isarelenses. Tomando o velho ditado hebreu “olho por olho, dente por dente” foi desencadeada assim a “Operação Ira de Deus” — que deveria caçar e matar todos os responsáveis pela tragédia em Munique. As equipes do Mossad foram divididas em cinco grupos: a primeira especializada em execuções e combate corpo a corpo (técnicas de Krav Maga), a segunda tomaria conta da segurança do grupo, tanto a terceira quanto a quarta equipe deveriam rastrear e perseguir os alvos. A última equipe era formada por dois especialistas em comunicação.
Ira de Deus
Cinco israelenses morreram reféns dentro de um helicóptero explodido por terroristas do grupo Setembro Negro  / httpestudosviquianosblogspotcom.dihitt.com
Cinco israelenses morreram reféns dentro de um helicóptero explodido por terroristas do grupo Setembro Negro / httpestudosviquianosblogspotcom.dihitt.com
A primeira vítima do Kidon foi Wael Zwaiter, um palestino residente em Roma. Numa manhã calma na capital italiana, enquanto ele procurava uma moeda para introduzir no contador do elevador, dois kidons saíram das sombras para eliminá-lo. Um deles disse: “Lembre-se de Munique”. Ao se virar, o segundo agente disparou seis tiros. Segundos depois ambos tinham desaparecido em um Fiat 125 verde.
Dois meses depois, o segundo alvo foi localizado na França, e se tratava do doutor Mahmoud Hamshari. Um dos kidons conseguiu invadir sua casa em Paris e instalou no interior do telefone residencial um dispositivo explosivo desenvolvido em Israel pelos técnicos do Mossad. Na manhã de 8 de dezembro de 1972 ao atender uma ligação, Hamshari ouviu um pequeno estalo e em seguida uma forte explosão lhe arrancou parte do rosto. Ele morreria dias depois no hospital.
Em janeiro de 1973, equipes do Kidon foram enviadas à ilha mediterrânea do Chipre. O alvo era Hussein Abdel Chir, conhecido como Abdel Hir. O Mossad teria descoberto que ele era um intermediário do serviço de segurança palestino com o KGB soviético. Os agentes israelenses descobriram o hotel em que estava hospedado e instalaram uma bomba debaixo do leito da suíte. Quando o terrorista apagou a luz, um dos kidon em campana na rua ativou um mecanismo explosivo com um comando a distância fazendo Abdel Chir voar pelos ares em pedaços.
No final das contas os vingadores de Israel haviam conseguido matar ou neutralizar 12 responsáveis pelo Setembro Negro, todos ligados ao assassinato dos 12 atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique. Mas ainda faltava Ali Hassan Salameh, o Príncipe Vermelho. Para o Mossad, o chefe do grupo terrorista era um playboy que gostava de boa vida, de mulheres bonitas e de carros esportivos, mas um dos mais brutais assassinos.
Caça ao Príncipe Vermelho
O Príncipe Vermelho teria orquestrado uma tentativa de assassinato da primeira-ministra Golda Meir, quando esta iria encontrar com o papa Paulo IV no Vaticano. O extremistas do Setembro Negro queriam disparar mísseis portáteis de fabricação soviética contra o avião que levaria a chefe de governo israelense quando este decolasse do aeroporto de Roma. Mas a Santa Aliança — serviço secreto do Vaticano — e o Mossad frustraram tal plano. Os kidon mataram os terroristas posicionados nos arredores do terminal aéreo da capital italiana antes que cometessem o atentado.
Em 1979, depois de muita investigação que envolveu as principais agências de inteligência do Ocidente, o Mossad conseguiu emboscar Salameh. Por volta das 15h45 do dia 22 de janeiro do mesmo ano, o Príncipe Vermelho trafegava numa Land Rover com sua escolta armada, numa Chevrolet Wagon. Ao adentrar uma rua de Beirute, capital do Líbano, Salameh teria seus últimos minutos como líder terrorista. Neste momento, quando o comboio se aproximou de um Volkswagen Golf de cor azul, um kidon escondido em um apartamento próximo apertou um botão vermelho que acionou um dispositivo explosivo implantado dentro do carro.
Salameh desapareceu numa enorme e destruidora bola de fogo. Pedaços de vidro e ferros contorcidos se misturaram a membros humanos espalhados pela rua.
Por fim, sete anos após a matança dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, aquele que foi o líder supremo da organização terrorista Setembro Vermelho tinha sido alcançado pelo longo braço da justiça de Israel. Na mesma noite da morte de Salameh, em Tel Aviv, vários líderes do governo e dos serviços de inteligência brindavam o êxito da Operação Ira de Deus e da Operação Príncipe Vermelho. “O olho por olho, dente por dente” foi cumprido.
Livro narra a espetacular operação que eliminou o líder maior do Hamas
Líder do Hamas, Ahmed Yassin, foi morto por míssil israelense em Gaza / Wikipédia Commons
Líder do Hamas, Ahmed Yassin, foi morto por míssil israelense em Gaza / Wikipédia Commons
Entre os anos de 1997 e 2004, os sistemas de segurança de Israel concentravam esforços em deter atos terroristas e suicidas de extremistas ligados a grupos islâmicos como o Hamas e a Frente Po­pu­lar de Libertação da Palestina. Or­ganizados, seus principais líderes passavam vários anos na Uni­versidade Patrice Lumumba em Moscou, nos quarteis da Stasi — ser­viço secreto da Alemanha Oriental — e em campos de treina­mento em Cuba e Coreia do Norte, segundos relatórios do Mossad.
Entre as principais lideranças, o xeique Ahmed Yassin era apontado como alvo prioritário. O líder do Hamas nasceu em 1938 na pequena aldeia palestina de Majdel. O velho muçulmano não era apenas só fundador e guia espiritual do movimento integrista islâmico Hamas, tratava-se da figura mais emblemática da resistência palestina. Doente há muito tempo e paralítico desde a infância, ostentava uma barba grisalha e o capuz branco dos militantes islâmicos. O fundador do Hamas movimentava-se na cadeira de rodas desde os 12 anos quando levou uma pancada na coluna quando jogava futebol em um campo de refugiados em Gaza.
Por conta da escalada de atentados contra cidadãos israelenses, o primeiro-ministro Ariel Sharon queria acertar o coração de grupos extremistas como o Hamas. Para tal, foi planejada a eliminação do xeique Ahmed Yassin. Desta forma, uma equipe do Kidon e duas da Aman — a inteligência militar israelense — se encarregariam de executar a ação denominada de “Operação Vingança”. Ao ser fotografado por um agente israelense, as imagens comprovaram que a cadeira de rodas usada pelo líder do Hamas era uma Otto Bock.
O chefe do comando conseguiu uma descrição técnica dela pelo fabricante. Deste modo, ficou estabelecido que um dos asseclas do xeique seria subornado pelo Mossad para implantar dentro da cadeira de rodas de Ahmed Yassin um dispositivo eletrônico que emitiria sinais. Feito isso era o momento do Kidon e da Aman entrar em ação. A inteligência israelense sabia que Ahmed Yassin tinha o costume de ir todas as tardes visitar várias famílias e depois rezar na mesquita. Essa seria a hora ideal de colocar em prática o plano de eliminação.
No dia 22 de março de 2004, um helicóptero de ataque Apache sustentava-se no ar em posição estável à espera de ordens. A aeronave iria disparar um míssil AGM-114 Hellfire ar-terra, mediante o sinal verde da equipe em solo. Guiado pelos sinais provenientes do dispositivo eletrônico implantado na cadeira de rodas do líder do Hamas, o míssil disparado deveria se chocar com o alvo exterminando-o.
Por volta das 6h da tarde do mesmo dia, quando as orações haviam terminado, o xeique Yassin e seus acompanhantes cruzaram uma ampla avenida na Faixa de Gaza. Nesse momento, o piloto do Apache recebeu a ordem através do fone: “Luz Verde. Víbora Um, entendido”, respondeu o piloto enquanto manobrava para o sul. A aeronave colocou-se sobre uma zona de casas baixas em pleno coração de Gaza e acionou o comando do disparo. O míssil passou a procurar a presa guiado pelo sinal vindo da cadeira de rodas. Segundos depois, o Hellfire se chocava contra o corpo do xeique Ahmed Yassin.
O líder palestino e quatro pessoas que estavam ao lado desapareceram da face da Terra devida à forte explosão. O fundador e líder espiritual do Movimento de Resistência Islâmica era apenas pedaço de carne inerte no telhado de uma casa perto dali. Israel jamais assumiu qualquer responsabilidade pelo assassinato de Yassin. Para o Estado hebreu, o Kidon era apenas mais uma lenda, um perigoso fantasma que aparecia e desaparecia após a morte de algum inimigo declarado do País dos judeus.
Operação Átomo: Mossad impede Iraque de desenvolver armas nucleares
 Caças F-16 e F-15 israelenses bombardearam os reatores nucleares iraquianos
Caças F-16 e F-15 israelenses bombardearam os reatores nucleares iraquianos
Entre abril de 1979 e junho de 1981, Isaac Hofi, o memuneh do Mossad, dirigia uma das maiores campanhas secretas contra o Iraque em toda história do serviço de espionagem israelense. O primeiro-ministro Menahem Begin daria o seu total apoio e o do seu governo com o intuito de impedir que o Iraque alcançasse o seu tão ansiado sonho nuclear. Israel e Iraque viviam em permanente estado de guerra desde 1948, quando o país árabe contribuiu com tropas para uma força militar conjunta, depois da declaração oficial do Estado de Israel.
Ter um poder nuclear se tornou uma verdadeira obsessão para o presidente iraquiano, Saddam Hussein, que poderia indubitavelmente pôr em perigo o equilíbrio militar no Oriente Médio. O programa nuclear iraquiano teve início formalmente, e em total segredo, em 11 de julho de 1970, quando os governo de Bagdá e Paris assinaram um acordo de cooperação mútua através do intercâmbio de material francês dessa natureza por petróleo iraquiano. Tanto o Mossad como o governo de Israel sabiam que o líder árabe tinha boas relações e contrato com as altas esferas do governo e da indústria bélica gaulesa.
Saddam Hussein, no afã de desenvolver seu plano nuclear, procurou repatriar cientistas árabes especialistas em física nuclear que estivessem trabalhando em outras potências. A CIA — a agência de inteligência americana — informou ao Mossad que 57 cientistas de várias nações do Oriente Médio, especialistas em diferentes áreas, entre elas biologia molecular, química, física nuclear e materiais, tinham viajado para o Iraque. Foram recrutados por dois organismos. O MI6 — agência britânica de espionagem — descobriu para os israelenses que ambas as instituições estavam relacionadas com um cunhado do próprio Saddam Hussein.
Desde então, Israel começava a traçar estratégia para paralisá-los. O primeiro ataque ao programa nuclear iraquiano pelo Mossad seria em 5 de abril de 1979. O Mossad localizou na cidade francesa de Toulon um armazém onde se escondiam os reatores que no dia seguinte seriam embarcados para o Iraque. Uma equipe do Kidon conseguiu adentrar as instalações sem que o controle de segurança a detectasse. Lá dentro, os israelenses colocarem cargas explosivas em diferentes lugares da instalação. Às 7h da manhã do dia seguinte, fortes explosões deixaram as peças destinadas ao Iraque totalmente destruídas e inutilizáveis. Após uma grande investigação, o SDECE — o serviço de espionagem francês — concluiu que a ação era obra do Mossad, devida à eficácia do trabalho.
Destruídos os reatores encomendados pelo Iraque, o próximo passo era neutralizar os três principais cientistas que trabalhavam para o projeto nuclear iraquiano. O primeiro alvo era o egípcio Yahia Al Meshad. Para essa operação o Kidon usou como isca uma prostituta perita em trabalhos especiais. Meshad era uma entusiasta do fetichismo e do sadomasoquismo, motivo pelo qual foi fácil para a garota de programa entrar em contato com ele. Ela o seduziu, beberam juntos e subiram para um quarto de um hotel de luxo em Paris. Depois de um tempo, a prostituta saiu deixando a porta entreaberta, enquanto o alvo dormia na cama.
Segundos depois, três assassinos do Kidon chegaram e colocaram o egípcio de barriga para baixo, segurando-lhe a cabeça para o alto e cortando-lhe a garganta com uma faca.
Depois de tomar conhecimento do assassinato em Bagdá, Saddam ordenou o envio de quatro agentes do Mukhabarat, a espionagem iraquiana, para investigar o que de fato havia ocorrido em Paris. Os espiões de Saddam procuraram a prostituta que havia ajudado o Mossad a matar o cientista a serviço do Iraque, entretanto os kidons a eliminaram primeiro como queima de arquivo, antes que os agentes de Saddam pudessem tirar informações que incriminassem o governo israelense.
Reatores nucleares de Osirak ­­­ficaram completamente destruídos após os ataques dos caças israelenses
Reatores nucleares de Osirak ­­­ficaram completamente destruídos após os ataques dos caças israelenses
Os próximos alvos do Kidon seriam os cientistas Salman Rashid e Abdel Rahman Abdul Rassool, Ambos seriam envenenados. O primeiro após ser seduzido por uma agente do kidon, que, disfarçada de jovem estudante, atraiu o árabe e durante a relação sexual que mantiveram o envenenou com um potente veneno desenvolvido no laboratório do Mossad. O segundo, que era homossexual, também foi atraído por um jovem agente do kidon disfarçado que, ao estabelecer relações íntimas, entregou-lhe trufas envenenadas. Horas depois de digerir o alimento, o especialista em materiais sofreu fortes dores e espasmos musculares, morrendo em seguida em um hospital parisiense.
A cartada final da Operação Átomo ocorreu em 1981. Na tarde do dia 6 de junho, 24 caças F-16 e F-15 da Força Aérea Israelense decolaram de uma base aérea no coração de Israel rumo ao Iraque. O plano consistia em sobrevoar quase 1.050 quilômetros sobre diversos países inimigos, localizar e destruir os alvos em terra e regressar à base. Radiofaróis móveis operados por agentes do Mossad em território iraquiano eram apontados em direção dos alvos que encaminhava sinais aos caças. Deste modo os pilotos conseguiram lançar as bombas com maior precisão.
Horas depois da decolagem da esquadrilha, caças F-15 iniciaram um devastador ataque sobre o reator nuclear de Osirak, na periferia da cidade iraquiana de Al-Tuwitha, a norte de Bagdá. A primeira onda de ataques derrubou a cúpula até o chão, além dos grossos muros reforçados. A segunda danificou gravemente dois edifícios em que se encontrava parte do material que seria montado por técnicos franceses e iraquianos. A terceira irrompeu sobre o núcleo do reator, que desmoronou no poço de refrigeração. Virava cinzas os esforços do Iraque do ditador Saddam Hussein de se tornar uma potência nuclear.