quinta-feira, 5 de março de 2015

10 BILHÕES - STEPHEN EMMOTT - FAUN PARA RECORDAR




O problema do clima está numa escala totalmente diferente.

A questão é que podemos muito bem estar caminhando para uma série de "pontos de virada" no que diz respeito ao clima mundial.

Todos os sistemas complexos, como o da Terra, possuem uma característica importante: uma mudança bem pequena (uma "perturbação") pode gerar um impacto enorme e imprevisível, capaz de fazer o sistema "despencar" para um estado completamente diferente e imprevisível.

Vamos examinar apenas um dos pontos de virada para o qual estamos caminhando: um aumento de mais de 2°C na temperatura média global. 

Uma meta mundial foi estabelecida pelo Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas (Intergovernamental Panel on Climate Change, ou IPCC) para tentar limitar a 2°C o aumento da temperatura média global. A justificativa é que uma elevação  maior traz o risco de uma mudança climática catastrófica que quase certamente levaria a pontos de virada irreversíveis, causados por eventos comobo derretimento das calotas polares da Groenlândia, a liberação de depósitos de metano congelados nos mares e nas tundras do Ártico ou o perecimento da Amazônia.

Na verdade, os dois primeiros já estão em curso - e ainda não atingimos o tal aumento máximo de 2°C. Quanto ao terceiro, não estamos esperando pela mudança climática; a Amazônia está sendo desmatada neste momento.

Infelizmente, pesquisas recentes indicam que é bastante provável um aumento bem superior a 2°C nas temperaturas médias globais.

No momento, existem grandes chances de ele chegar a 4°C no futuro - e não podemos descartar a possibilidade de que alcance 6°C.

Um aumento de 4 a 6°C na temperatura média global será uma catástrofe absoluta. Provocará uma mudança climática descontrolada, capaz de levar o planeta bem depressa para um estado totalmente diferente. A Terra viraria um inferno.

Nas próximas décadas, iremos testemunhar extremos sem precedentes no clima: incêndios, inundações, ondas de calor, perda de lavouras e florestas, esgotamento hídrico e elevações catastróficas do nível do mar.

No entanto, mesmo se dermos a sorte de termos uma elevação inferior a 4°C a 6°C, é quase certo que não haverá um país chamado Bangladesh no final deste século  - ele estará embaixo d'água.

Grande parte da África irá se transformar en área de desastre permanente. A Amazônia talvez se torne uma savana ou mesmo um deserto. E todo o sistema agrícola enfrentará uma ameaça inédita.

Países mais "afortunados", como o Reino Unido, os Estados Unidos e a maior parte da Europa, poderão ficar parecidos com nações militarizadas, com fronteiras fortemente defendidas, a fim de impedir a entrada de milhões de pessoas cujos paraísos de origem já não são mais habitáveis, não tem água ou comida suficientes, ou passam por conflitos decorrentes da escassez cada vez maior dos recursos naturais.

Essas pessoas serão "migrantes climáticos".
Teremos que nos acostumar com esse termo.

De fato, está se iludindo quem pensa que a nova conjuntura global não tem potencial para causar conflitos civis e internacionais.

Não é por acaso que praticamente todas as conferências científicas sobre mudanças climáticas das quais participo têm um novo tipo de participante: as forças armadas.