quarta-feira, 11 de março de 2015

10 BILHÕES - STEPHEN EMMOTT- PESSIMISMO CONSTRUTIVO - FONTES ENERGÉTICAS E CONSEQUÊNCIAS


Para todos os lados que se olhe, um planeta de dez bilhões parece um pesadelo.

E o mais preocupante é que agora existem provas contundentes de que todos os ecossistemas globais não só podem chegar a um ponto de virada catastrófico, mas já estão próximos dessa transição.

Então quais são as nossas opções?

Eu vejo duas: a primeira é a tecnologia; a segunda é uma mudança radical de comportamento.

A solução pela tecnologia.

Este é o âmbito do "otimismo nacional", para o qual as antigas previsões de um futuro desastroso - como as de Malthus e Ehrlich - se revelaram infundadas, sobretudo porque nossa inteligência e nossa inventividade nos permitiram usar a tecnologia a fim de sempre solucionar o problema da população. Por exemplo, com a tecnologia, encontramos a saída para uma crise de alimentos causada pelo rápido crescimento populacional nos anos 1950 e 1960 ao criarmos a Revolução Verde.

Deixando de lado que, na verdade, a tecnologia nos levou aos presentes problemas, vamos dar uma olhada nas ideias atuais para uma solução tecnológica.

São basicamente cinco;

1. a energia verde
2. a energia nuclear 
3. a dessalinização 
4. a geoengenharia 
5. uma segunda Revolução Verde

A "energia verde", também chamada de "renovável", refere-se aos biocombustíveis e às energias eólica, das ondas, solar e hidrelétrica.

O fato é que há poucas chances de as tecnologias atuais de energia verde serem uma solução viável para o planeta. Simplesmente não vai acontecer.

É difícil imaginar que as tecnologias atuais de energia renovável possam resolver nossas demandas de energia em grande escala. Por exemplo, a próxima geração de celulas fotovoltaicas de silício (painéis solares) requer mineração intensiva de muitos metais e terras-raras. A mineração envolve processos que são tudo menos "verdes". Muitos desses metais estão em grave risco do que é conhecido como "déficit cumulativo de oferta" - isto é, estão se esgotando. Além disso, a produção de uma nova geração de painéis solares requer trifluoreto de nitrogênio, um dos gases de efeito estufa mais potentes da Terra.

Outra questão é: ainda que as tecnologias de energia verde fossem uma solução global, o que não são, precisaríamos começar um programa mundial neste momento.

E não estamos fazendo isso.

Mesmo que iniciassemos um programa dessa abrangência, o que não fazemos, levaria décadas para que pudéssemos abastecer o planeta com energia verde.

Nesse meio tempo, quase toda nossa energia continuaria vindo de combustíveis fósseis - petróleo, carvão e gás - exacerbando ainda mais o problema do clima.

Contudo, não se pode negar que um tipo inteiramente novo de revolução de energia verde é possível. As plantas já fizeram essa revolução. Chama-se fotossíntese.

Se descobrissemos como fazer uma "fotossíntese artificial" - aprender com as plantas a colher e converter energia do sol - isso poderia ser uma solução energética em nível mundial. 

Apenas alguns laboratórios no mundo inteiro - como o meu - estão começando a pensar nisso.

Nunca pensei que diria isso, mas a energia nuclear parece ser a única tecnologia existente capaz de resolver o problema da energia, pelo menos a curto prazo - isto é, nas próximas décadas. 

No entanto, para que a energia nuclear fosse uma solução, seria preciso iniciar um programa global neste momento.

E não estamos fazendo isso.

Na verdade, os governos do mundo inteiro estão evitando a energia nuclear, por ser onerosa e politicamente impopular e porque a indústria da energia nuclear comercial não quer assumir os custos a longo prazo do recolhimento e tratamento dos resíduos nucleares.

Poderíamos, talvez, resolver parte do problema mundial da água com a construção de usinas de dessalinização, que torna utilizável a água do mar.

Entretanto, mais uma vez, seria preciso iniciar agora um programa sólido de dessalinização. E um programa desse tipo não está sequer no horizonte.

E, mesmo que estivesse, resolveriamos um problema (a crescente escassez de água doce) e intensificariamos outros dois.

Primeiro, o problema da energia, pois a dessalinização sonsome muita energia. Segundo, a aceleração da degradação dos ecossistemas costeiros, uma vez que a dessalinização é extremamente poluente.

A geoengenharia é, em essência, a noção de que os esforços da engenharia em escala planetária podem ser necessários apenas para atenuar as piores consequências dos problemas que enfrentamos. As ideias atuais incluem:

1. Semear os oceanos com bilhões de toneladas de limalha de ferro, a fim de acelerar a velocidade com que absorvem CO2. Mas isso pode ser um desastre para a cida marinha. E seu efeito sobre o ciclo global do carbono é completamente desconhecido.

2. Construir guarda-chuvas gigantes no espaço para refletir a energia solar de volta para o espaço.

3. Inserir aerossóis na atmosfera, seja injetando continuamente nela dióxido de enxofre, de modo a simular erupções vulcânicas "diárias", ou introduzindo na atmosfera pó de pedra calcária, cloreto de titânio ou fuligem, a fim de bloquear a radiação solar. O objetivo seria criar nuvens atmosféricas marrons "planejadas". Devo ressaltar que as nuvens atmosféricas marrons já estão tendo efeitos adversos na saúde de cerca de três bilhões de pessoas. 

4. Capturar e armazenar o carbono, ou seja, capturar dióxido de carbono na fonte (centrais de energia) e armazena-lo no subsolo. O maior projeto piloto de captura e armazenamento de cardo mundo, no Reino Unido, foi cancelado em 2012 porque se revelou técnica e financeiramente inviável.

O problema é que todas as soluções atuais de geoengenharia ainda não foram comprovadas.

Todas são muito caras. E todas trazem efeitos colaterais significativos, com impactos a longo prazo totalmente imprevisíveis.

Eu, pessoalmente, não sou otimista quanto à geoengenharia. Na verdade, sou profundamente cético.

Conforme disse antes, no momento não há qualquer forma conhecida de alimentar uma população de dez bilhões. Assim, a ideia de uma segunda Revolução Verde para resolver o problema é uma questão crucial.

Já fizemos uma Revolução Verde, por isso a conclusão a que chegamos é que devemos ser capazes de promover outra.

A necessidade real e urgente de uma revolução alimentar é um fato inegável, pois, sem uma, é quase certo que bilhões de nós morreremos de fome.

Contudo, ao explorarmos a ideia de uma segunda Revolução Verde, vale a pena examinarmos a primeira um pouco mais de perto.

O foco da primeira Revolução Verde era aumentar a produção das plantações. Mas, para isso, tivemos que introduzir fertilizantes químicos e nos dedicar a colheitas de ciclo mais curto (de modo que as plantas investissem energia no a aumento da produção de sementes e flores utilizáveis para nós, em vez de ficarem mais altas).

Ao cultivar colheitas de ciclo mais curto, tivemos que compensar com a utilização de herbicidas químicos para matar as ervas daninhas, que de outra forma ficariam muito mais altas do que as plantações e as superariam na competição pelo acesso à luz.

Também acabamos por eliminar as defesas naturais das colheitas contra as pragas, que retardam a taxa de crescimento das plantações. Tivemos que compensar isso, por sua vez, com a introdução de pesticidas químicos.

Produzimos, também, safras que dependiam abundantemente de água, o que precisou ser compensado com um aumento extremo no uso da água para a agricultura.

A Revolução Verde não foi uma história sobre "pessoas inteligentes que descobriram como extrair mais comida dos nossos campos". A verdade é que a Revolução Verde foi uma história sobre pessoas inteligentes que pensaram que seria uma boa ideia obter cada unidade a mais de alimento usando energia e produtos químicos.

A Revolução Verde foi um mito.

Precisamos de uma revolução alimentar, mas de uma que exigirá um tipo radicalmente novo de ciência.

O que mais, em termos de tecnologia?

E quanto a novas ideias e tecnologia que possam surgir a qualquer momento no futuro? Sem dúvida, pelo ponto de vista otimista racional, graças à nossa inteligência e inventividade não teremos que nos preocupar:
vamos criar uma solução para nossa situação.
E - até eu preciso confessar - é extremamente tentador acreditar em algo tão atraente. Mas acreditar nisso seria mergulhar em pura fantasia.

Dado a nossa situação, creio que agora seria bastante prudente assumir uma postura pessimista racional.

Assim, no que me diz respeito, com os indícios que temos hoje, não parece provável que conseguiremos encontrar uma solução tecnológica para o problema.

Então precisamos fazer outra coisa.

Se não conseguirmos resolver o problema usando a tecnologia, a única solução que nos resta é mudar de comportamento, radical e globalmente, em todos os níveis.

Em suma, precisamos com urgência comer menos. Muito menos. Radicalmente menos. E precisamos preservar mais. Muito mais.

Para alcançar uma mudança de comportamento tão radical também seria necessária uma ação radical dos governos.

Contudo, no que diz respeito a esse tipo de mudança, hoje os políticos são parte do problema, e não da solução, pois é inevitável que as decisões necessárias para implementar uma mudança significativa de comportamento tornem os políticos extremamente impopulares - e todos eles sabem muito bem disso.