quarta-feira, 17 de junho de 2015

Parabéns canadenses por haver entre vocês multidoes solidarias e amigas de Israel. BDS é crime assim como o nazismo o foi


             CARTA MAIOR

15/06/2015 - Copyleft

Governo canadense quer tornar boicote a Israel um crime de ódio

Qualquer um que reagir aos vícios da apropriação da terra na Cisjordânia por Israel será considerado um antissemita.


Robert Fisk, do The Independent
Wikimedia Commons
Nunca gostei muito de boicotes. O boicote contra a Itália por invadir a Abissínia não funcionou. Nem o bloqueio armado na Espanha. Ainda não estou certo de que boicotar a África do Sul realmente derrubou oapartheid. Prefiro suspeitar que os velhos racistas simplesmente realizaram que estavam em menor numero do que os negros da África do Sul e que o jogo havia acabado.

E ainda não estou convencido de que boicotar Israel, mesmo que assuste os lunáticos de direita do governo de Benjamin Netanyahu, irá alcançar uma solução de dois Estados, direitos humanos para Palestinos, etc. Posso recusar comprar produtos de colônias judias em territorio árabe ocupado (não os compro), mas, quando visito Israel, fico no Hotel King David a oeste de Jerusalém, visito a galeria de arte de Tel Aviv e compro livros publicados em Israel. Alguns acadêmicos israelenses apoiam o boicote do seu proprio país. Talvez estejam certos em fazê-lo. 

Mas no Canadá – e eu tive que literalmente esfregar meus olhos ao ler isso – o governo totalmente pró-Israel de Stephen Harper pretende listar o boicote à Israel como "crime de ódio". Isso não é somente ridículo, estúpido, sem sentido e racista porque assume que qualquer um que se opor aos vícios e políticas de apropriação de terra na Cisjordânia por Israel é um antissemita - é também antidemocrático. Aqueles que acreditam na não violência sempre abraçaram movimentos de boicote sob os preceitos de que a pressão econêmica ao invés de bombardeios é a maneira de pressionar um país que não obedece as leis internacionais. 

Ainda assim, Harper foi longe ao sugerir em recente visita à Jerusalém que criticar Israel pode ser uma forma de antissemitismo. O recém-aposentado Ministro das Relações Exteriores do Canadá John Baird (costumeiramente um senhor razoável) descreveu o movimento canadense de boicote a Israel como "a nova face do antissemitismo". Em janeiro, ele assinou um acordo oficial com Israel para lutar contra a organização de boicote a Israel, conhecida como BDS (Boicotes, Desinvestimentos e Sanções). Steven Blaney, que regozija-se com o titulo de Ministro da Segurança Pública do Canadá, diz que os boicotes a Israel não podem ser separados do discurso de ódio antissemita e de recentes ataques contra judeus na França.

Se eu me recuso a comprar laranjas produzidas em Israel num mercado, isso não me torna um assassino nazista. Criticar Israel não torna canadenses inimigos dos judeus. Um número de grupos judaicos liberais protestaram contra a extensão proposta por Harper às existentes "leis de ódio" – muitas organizações judaicas a elogiaram – sob o pretexto de que assume que todos os judeus apoiam Israel ou suas sanções. A partir do momento que judeus também são parte de grupos de boicote a Israel, a definição expandida da lei de Harper teria que pôr judeus em julgamento no Canadá por antissemitismo. 

Encobertos como de costume com os clichês que todos políticos lei-ordem-moral-e-bons-costumes adotam, aos canadenses é dito que seu governo mostrara “tolerância zero” para com grupos que advogam o boicote à Israel. É claro, mostramos “tolerância zero” para o roubo, assaltos e milicianos nas ruas. Mas “tolerância zero” contra aqueles que desejam boicotar uma nação cujo exercito já matou mais de 2 mil palestinos em Gaza no ano passado, mais da metade sendo civis? Sério? 

Depois do assassinato de um soldado canadense fora do parlamento de Ottawa por um muçulmano no ano passado e o ataque a prestadores de serviço canadenses, Harper divulgou a mensagem de condolências que havia recebido de Netanyahu, como se os sentimentos de um homem que ordenou o bombardeio de Gaza fossem algo para se ter orgulho. 

A pegada obscura de tudo isso é que, no ano passado, o Canadá mudou sua definição de discurso de ódio para incluir declarações feitas contra “origem nacional”, não apenas raça e religião. Assim, declarações e discursos críticos a Israel – como uma série de palestras que fiz no Canadá – podem agora ser taxadas como declarações contra judeus (mesmo que os judeus estejam entre as organizações dos meus compromissos de palestras na América do Norte). E, em seu tempo, jornais de opinião como o Toronto Star podem ser condenados como antissemitas e, com isso, passíveis de denúncia por "crime de ódio”. 

Essa definição estendida de crime de ódio deixará muitos grupos da sociedade civil sob pressão. A Igreja Unida do Canadá e os Quakers canadenses podem se encontrar em julgamento. Os juízes teriam que suportar essa legislação ultrajante e exercitar a “tolerância zero” contra o livre arbítrio daqueles que condenam os crimes de guerra de Israel no Oriente Médio. 

Vale a pena lembrar que dezenas de milhares de judeus ao redor do mundo, especialmente na América do Norte e na Polônia, pediram por um boicote a Alemanha nazista em 1933 pelos mesmos atos antissemitas que levaram ao Holocausto. Diplomatas norte-americanos foram críticos. Mas não ameaçaram os protestantes com “tolerância zero” para “crimes de ódio” em função da “origem nacional” dos alemães que propuseram boicotar.

Afinal, é bem simples. Boicotar um estado por seus crimes é uma forma não violenta mas potencialmente poderosa de expressar abusos morais em tempos em que declarações políticas – ou governos covardes como o de Stephen Harper – falham em representar a raiva dos eleitores ou têm qualquer efeito sobre um Estado que ignora a lei internacional. 
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Robert Fisk é um jornalista inglês. Correspondente do jornal The Independent no Oriente Médio, vive em Beirute há mais de 30 anos.