Sob a sombra do nazismo, ópera será encenada em Israel

JERUSALÉM - A ópera "Carmina Burana", composta na era nazista por Carl Orff, será apresentada em um festival de música israelense tendo como pano de fundo um planalto desértico imponente que é um símbolo da resistência e do sacrifício judaicos. A peça de Orff, composta por 24 poemas, a sua maioria em latim, é uma das mais populares da música clássica, especialmente o movimento de abertura, "O Fortuna".
Orff, nascido na Baviera em 1895, prosperou sob os nazistas, que adoravam seus refrões empolgantes e seus temas pagãos. Mas ao contrário de Richard Wagner, compositor favorito de Adolf Hitler e um antissemita virulento, cuja música continua a ser extraoficialmente proibida em Israel, a obra de Carl Orff foi apresentada publicamente no país por décadas.
Agora, será apresentada pela primeira vez no Festival de Ópera anual em Massada hoje e, depois, em 12 de junho. O local fica situado no topo de uma montanha, no extremo oriental do Deserto da Judeia e possui uma vista deslumbrante para o Mar Morto.
- Eu não acho que eles tocavam Carl Orff nos campos (de concentração) de Auschwitz e Treblinka, mas eles tocavam Wagner antes de enviar as pessoas para as câmaras de gás - diz Daniel Oren, diretor musical da Ópera de Israel, que está realizando o festival.
LOCAL SIMBÓLICO
Michael Ajzenstadt, administrador artístico da companhia, disse que "a arte era a mensagem" quando se tratava de compositores controversos.
- Se olharmos para a vida, as crenças e as doutrinas de cada artista em todo o mundo, eu tenho certeza que não vamos ser capazes de tocar, pelo menos em Israel, um monte de música - disse. - Eu acho que no século XXI, não deve haver censura, definitivamente não de artistas, especialmente aqueles que viviam na Alemanha e tentaram permanecer vivos. Alguns fizeram isso porque é o que eles sentiram, alguns acreditavam (na ideologia nazista), outros não.
Massada - fortaleza em hebraico - tem um papel importante para muitos israelenses.
Foi em lá que, em 73 d.C., centenas de judeus rebeldes decidiram cometer suicídio em massa para não viverem como escravos dos colonizadores do Império Romano, de acordo com os escritos do historiador romano judeu Flávio Josefo.
A sorte dos homens e dos povos está também nos primeiros versos de "O Fortuna": "Ó Sorte, és como a Lua, mutável, sempre aumentas e diminuis; a detestável vida ora oprime e ora cura para brincar com a mente; a miséria, o poder, ela os funde como gelo".
A produção "Carmina Burana", no enorme palco ao ar livre de Massada, foi concebida pelo diretor polonês Michal Znaniecki, com o Teatro de Dança Kielce proporcionando movimento coloridos em palcos iluminados de forma inovadora.
Este ano o festival vai Massada também incluem quatro performances de ópera Tosca, de Puccini.