segunda-feira, 30 de maio de 2016

Avigdor Lieberman, um dos exemplos de que Israel compensa a lealdade e o esforço inteligente: Segurança do clube estudantil da Universidade Hebraica, do qual foi também responsável e onde conheceu a sua atual mulher com quem tem três filhos. A sua ligação ao Likud levou-o ao contacto com Benjamin Netanyahu. E, desde 1988 até 1997, os dois políticos caminharam lado a lado ao ponto de, então, Lieberman ser classificado como a "eminência parda" de Netanyahu de quem foi diretor-geral do seu gabinete de primeiro-ministro após ter sido diretor-geral do Likud.


O segurança de um clube que agora chefia a Defesa de Israel

Os inimigos chamam já a Lieberman “ministro do Desastre” em vez de ministro da Defesa. Os apoiantes garantem que é suficientemente pragmático para se sair bem de mais este desafio
  |  REUTERS/Ammar Awad
Avigdor Lieberman tem nas mãos a chave da paz e da guerra, uma situação que está a incomodar muita gente tendo em conta a ideologia ultranacionalista extremista do ministro.
"Ele odeia-me, calunia-me; é um homem perigoso, nada o faz deter", afirmava recentemente o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, citado pelo The New York Times, ao referir-se a Avigdor Lieberman. A realidade política levou, porém, Netanyahu a "esquecer" as diatribes do seu mais acérrimo crítico do último ano e a convidá-lo para voltar a integrar o executivo, agora como ministro da Defesa.
Mas quem é este homem que vai ocupar o segundo mais importante lugar do Estado de Israel e cuja nomeação está a provocar surpresa, críticas e receios tanto a nível interno como internacional?
Lieberman é sobejamente conhecido, dentro e fora das fronteiras do seu país de adoção, pelas políticas que defende e pelas declarações muito pouco conciliadoras, agressivas, virulentas mesmo, que profere e que lhe valem epítetos como "buldózer", "racista", "ditador", "psicopata", "fascista", "extremista", etc. Termos que o deixam indiferente, até porque há também todos aqueles que o consideram pragmático quanto baste para se sair bem de mais este desafio.
Os corredores do poder não são desconhecidos do líder e fundador do partido Yisrael Beiteinu (Israel a nossa casa), a força política russófona criada em 1999 e que rapidamente cativou uma franja significativa do eleitorado israelita formada, essencialmente, por judeus que nos anos de 1990 tinham emigrado da União Soviética e que não se sentiam defendidos pelos dois principais partidos do espetro político - o partido Trabalhista (centro-esquerda) e o Likud (direita).
Oriundo da União Soviética, onde nasceu a 5 de junho de 1958 em Chisinau (Moldávia), Lieberman chegou a Israel com 20 anos. Após ter feito o serviço militar, onde não foi além de cabo, entrou na Universidade Hebraica de Jerusalém onde estudou Relações Internacionais e Ciência Política e deu os primeiros passos na "esfera política" e na "arte da violência". De acordo com a imprensa israelita, data dessa época a sua ligação à ala jovem do Likud, cujos elementos se envolviam em confrontos com os estudantes árabes. E o jovem Lieberman, que na União Soviética fora segurança de um clube noturno, parecia sentir-se particularmente à vontade quando se tratava de usar os punhos. Outras fontes referem que terá feito parte, durante um curto período, do partido Kach do rabino Meier Kahane, força política que acabou por ser ilegalizada e classificada como grupo terrorista por Israel.
As suas qualidades físicas acabaram por lhe facilitar emprego como segurança do clube estudantil da Universidade Hebraica, do qual foi também responsável e onde conheceu a sua atual mulher com quem tem três filhos.
A sua ligação ao Likud levou-o ao contacto com Benjamin Netanyahu. E, desde 1988 até 1997, os dois políticos caminharam lado a lado ao ponto de, então, Lieberman ser classificado como a "eminência parda" de Netanyahu de quem foi diretor-geral do seu gabinete de primeiro-ministro após ter sido diretor-geral do Likud.
Separação
Em 1997, Lieberman abandona Netanyahu por, alegadamente, discordar dos avanços nas negociações de paz com os palestinianos. Mas os media israelitas e internacionais explicam a decisão com o facto de Lieberman ser já então alvo de suspeitas de corrupção, daí a necessidade do seu afastamento. A verdade, porém, é que essa será a atitude do político nos anos subsequentes: abandona sempre o governo que avança nas negociações com os palestinianos porque recusa o processo de paz com o mesmo ênfase com que apoia os colonos e os colonatos judaicos nos territórios ocupados, recusa o direito ao regresso de qualquer refugiado palestiniano e defende que se deve transferir cidades árabes para a Autoridade Palestiniana para que Israel possa ficar com os territórios da Cisjordânia onde "plantou" colonatos.
São todas estas ideias que vão enformar a plataforma do seu partido, o ultranacionalista Yisrael Beiteinu que vê a luz do dia em 1999 e que, em consequência do sistema eleitoral israelita onde nenhum partido tem a maioria, rapidamente se afirma como uma força política que pode decidir a vida das coligações governamentais. É assim que Lieberman vai assumindo sucessivas pastas ministeriais - Infraestrutura (2001-2002), Transportes (2003-2004), vice-primeiro-ministro (2006-2008), Assuntos Estratégicos (2006-2008), vice-primeiro-ministro (2009-2012), Negócios Estrangeiros (2009-2015).
Este ultranacionalista extremista, que vive no colonato Nokdim, não longe de Belém, na Cisjordânia ocupada, é já classificado pelos seus detratores não como o ministro da Defesa de Israel mas como o "ministro do Desastre" de Israel. Muitos receiam que, agora, ele possa pôr em prática todas as ameaças que fez - como a da reconquista da Faixa de Gaza - que lançaria de novo Israel em rota de colisão com os seus vizinhos. Os próprios militares não encaram com bons olhos a escolha de Lieberman, não pelo facto de ele não ter uma carreira militar - Shimon Peres também não teve e a sua passagem pelo Ministério da Defesa nunca foi contestada - mas pelas suas atitudes extremistas.