domingo, 19 de junho de 2016

Se há tema que o inflame é o extremismo, na Europa como em Israel, e os efeitos devastadores de uma guerra que não serve nenhum dos lados, alimentada por pessoas que "pretendem moldar a história". "Ouve-se muito que Israel é um país de apartheid. Quem diz isto não sabe o que é apartheid nem sabe o que é Israel. Irrita-me ouvir estas coisas. Mais de 10% do nosso Parlamento são deputados árabes, todos votam para o Parlamento, estão sujeitos às mesmas leis; no nosso grupo, 40% dos funcionários são árabes. Israel não é um país perfeito, nenhum é, mas é um dos países mais democráticos do mundo. Temos deputados assumidamente gays - ainda na semana passada estavam entre as 200 mil pessoas que participaram na parada LGBT em Telavive. Eles são eleitos, ninguém fala mal deles. Em oito milhões de habitantes, mais de dois milhões são muçulmanos e duvido que algum deles preferisse viver noutro país - fosse na Cisjordânia, em Gaza, na Jordânia... Infelizmente, há extremistas dos dois lados. Mas dizer que é um país de apartheid é um abuso, é passar informação muito errada." "Vivemos em guerra há mais de cem anos em Israel e não vejo que isto vá parar num futuro próximo... Era preciso mudar mentalidades, mudar a maneira como se pensa e vê os vizinhos." Encosta-se, respira fundo, sorri. Pede para falarmos de coisas mais agradáveis - antes, revê o desabafo: "Vamos acreditar que as coisas vão mudar e que não vai morrer mais gente. Sejamos otimistas."

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Eyal Edery: "Irrita-me que digam que Israel é um país de apartheid"
18 DE JUNHO DE 2016 00:26
Joana Petiz

Eyal Edery

| ANDRÉ CARRILHO


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Israelita, 41 anos, casado e pai de três rapazes e uma rapariga, é o homem responsável pelos Cinema City, onde faz questão de vender, mais do que filmes, "sonhos e experiências"

O português entalado no hebraico e recheado de expressões inglesas não é uma barreira quando se fala com o homem que leva adiante o negócio dos Cinema City. Talvez por procurar sempre - às vezes inventar - os termos que mais se aproximam daquilo que quer dizer. Mais provavelmente pelo sorriso que nunca lhe desaparece dos olhos e pelo entusiasmo com que fala do cinema, da família, de Israel, de Portugal. Eyal Edery acaba de chegar de umas férias de duas semanas em Telavive, onde esteve com a mulher e os quatro filhos (três rapazes e uma rapariga, entre os 7 e os quase 2 anos) para o casamento da irmã mais nova. Não teme pela segurança dos miúdos? "Eu nasci e vivi em Israel uma boa parte da minha vida. Há um conflito, mas temos de viver com isso, não podemos parar de viver ou viver com medo porque isso é deixar que os terroristas ganhem."

À mesa do restaurante do Bairro Alto Hotel, vai desfiando a paixão pelo cinema - está-lhe nos genes: o pai, Leon, e o tio, Moshe, fizeram dele um negócio e Eyal e os irmãos (dois rapazes, duas raparigas) cresceram entre bobinas, fitas e projetores. O empresário passava as férias a ajudar no cinema da família, na cidade do Sul de Israel, onde o pai chegou em 1960, deixando Marrocos para trás, e onde ele nasceu e cresceu. "Fazia de tudo: colava autocolantes nas cassetes VHS, fui arrumador... só depois de tirar a licenciatura comecei a gerir um cinema." E nisso o que mais o ajudou foram os três anos de tropa que os israelitas têm de cumprir (dois para mulheres). "Há quem veja isso como tempo perdido, mas eu aprendi muito ali, a gerir pessoas, por exemplo."

Não está acostumado a comer muito - "a esta hora e ao final da tarde, aí até às 21.00, com o escritório vazio, aproveito para pensar e fazer outras coisas" -, mas abriu uma exceção para o nosso almoço. Não toca no pão. Escolhe Água das Pedras para acompanhar a refeição e um "creme de couve-flor com nano profiteroles" para começar - criatividade do chef Bruno Rocha; a minha é descrita na lista com igual originalidade: "O requeijão de ovelha desfez-se pelo escabeche de pimentos."
"Pode ver-se um filme em qualquer buraco negro, mas não se pode ter uma experiência num buraco negro"

A um mês de fazer 42 anos, a viver em Portugal há uma dúzia, Eyal Edery fala de tudo como se nos conhecêssemos há muito tempo. "Desde pequeno que sabia que ia trabalhar nisto e posso dizer que tenho uma vida interessante, porque este é um negócio que mexe em todas as áreas: do marketing à gestão, food & beverage, manutenção; é diferente todas as semanas." Quando era solteiro, não parava num sítio muito tempo. Agora viaja menos: "Em família, vou umas três vezes por ano a Israel - os miúdos adoram porque estão de férias e lá são mimados pela família, recebem presentes, brincam a toda a hora. Mas nasceram aqui e gostam muito de viver em Portugal - e falam três línguas, português, inglês e hebraico, o que é excelente."

No resto do ano, o empresário passa mais ou menos uma semana por mês fora. O necessário para cumprir a agenda de visionamentos, festivais de cinema, apresentações, conferências. Se não lho perguntasse, não me diria que nessas andanças já conheceu mais de 60% dos atores, realizadores e restante star system de Hollywood. Quase sem eu dar pelo desaparecimento lento do creme de couve-flor, vai revelando um bocadinho mais. Diz que é difícil fazer amigos na passadeira vermelha porque não há tempo ou disponibilidade para grandes conversas, mas admite ter alguma proximidade com Natalie Portman - "ela é meio israelita, por isso é mais fácil partir esta parede". Ainda assim, já teve encontros "muito interessantes". Com George Clooney, por exemplo: "Já tinha uma boa opinião dele, mas ouvi-lo falar de um projeto com tanto entusiasmo e simpatia fez-me ficar com ainda melhor opinião."

A quem ganhou horror, não diz. Prefere falar do que corre bem e, mesmo quando o tema é o conflito israelo-palestiniano - que chega à mesa ao mesmo tempo que o peixe e o arroz de berbigão -, não foge ao assunto. "Esta não é uma guerra de Israel, é do mundo. Infelizmente, não tem sido vista assim, mas isto vai chegar à Europa... Há aqui muçulmanos, judeus, cristãos, nos últimos anos chegaram milhares de refugiados - a maioria quer construir uma boa vida, ter um futuro para os filhos, mas também há elementos perigosos. Fechar fronteiras e deixar as pessoas morrer do outro lado não é uma opção. Não é! Mas é preciso ter cuidado, não deixar que se abuse da democracia e ataque a Europa."

Se há tema que o inflame é o extremismo, na Europa como em Israel, e os efeitos devastadores de uma guerra que não serve nenhum dos lados, alimentada por pessoas que "pretendem moldar a história". "Ouve-se muito que Israel é um país de apartheid. Quem diz isto não sabe o que é apartheid nem sabe o que é Israel. Irrita-me ouvir estas coisas. Mais de 10% do nosso Parlamento são deputados árabes, todos votam para o Parlamento, estão sujeitos às mesmas leis; no nosso grupo, 40% dos funcionários são árabes. Israel não é um país perfeito, nenhum é, mas é um dos países mais democráticos do mundo. Temos deputados assumidamente gays - ainda na semana passada estavam entre as 200 mil pessoas que participaram na parada LGBT em Telavive. Eles são eleitos, ninguém fala mal deles. Em oito milhões de habitantes, mais de dois milhões são muçulmanos e duvido que algum deles preferisse viver noutro país - fosse na Cisjordânia, em Gaza, na Jordânia... Infelizmente, há extremistas dos dois lados. Mas dizer que é um país de apartheid é um abuso, é passar informação muito errada."

"Vivemos em guerra há mais de cem anos em Israel e não vejo que isto vá parar num futuro próximo... Era preciso mudar mentalidades, mudar a maneira como se pensa e vê os vizinhos." Encosta-se, respira fundo, sorri. Pede para falarmos de coisas mais agradáveis - antes, revê o desabafo: "Vamos acreditar que as coisas vão mudar e que não vai morrer mais gente. Sejamos otimistas."

Sorriso honesto, viaja pela sua vida como se tudo tivesse sido fácil, desde a forma como reencontrou, sete anos depois de se conhecerem, a mulher com quem viria a casar em 1998 (ela é responsável pelos bares dos Cinema City) e trocaram Telavive por Lisboa, até à gestão dos mais de 150 colaboradores dos seis complexos Cinema City, em que não há duas salas iguais.

"Pode ver-se um filme em qualquer buraco negro, mas não se pode ter uma experiência num buraco negro." É assim que explica o conceito da marca que gere em Portugal e que inclui salas de cinema à medida dos filmes. Há as de terror, as de ação, as de animação, decoradas de forma a criar ambiente para as histórias a que o público vai assistir - uma delas, com figuras da Disney e cadeiras coloridas a fazer pendant com os filmes para crianças, foi destacada no site Architecture and Design como uma das 24 mais bonitas do mundo. E depois há as salas VIP - verdadeiramente VIP -, com um lobby exclusivo onde se pode tomar um copo de vinho, comer uma refeição ligeira e abastecer-se de pipocas antes de entrar e sentar-se nas poltronas king size reclináveis.

É do pai, o homem que abriu o King em Lisboa nos anos 1980, a ideia de construir um cinema que, mais do que exibir filmes, vendesse experiências. "Ele tem sempre ideias diferentes, quer tentar novas coisas, melhorar. Não importa se os arquitetos dizem que não se pode fazer: se ele pensa em algo, é quase impossível demovê-lo." E parece resultar. No ano passado, o grupo cresceu a um ritmo que mais do que duplicou o do mercado (44% contra os cerca de 20% do setor) e até maio deste ano avançou mais 8%, enquanto os outros se mantêm estáveis. "Os clientes valorizam a diferença - se não for pela experiência, fazem o download e veem o filme em casa. E é a melhor sensação do mundo, ver as pessoas que entram num Cinema City olharem à volta, absorverem aquilo tudo, ficarem impressionadas. Quando estreámos o Star Wars e pusemos o Darth Vader e os Stormtroopers à entrada, cada cliente que chegava parecia uma criança. É muito gratificante ver isto."A ideia de vender sonhos é o que Eyal diz ser essencial passar à equipa e ele próprio faz questão de se manter em contacto com os colaboradores para ouvir em primeira mão sugestões e reclamações, o que retêm do contacto com os clientes e o que eles próprios acham que traria valor à marca. "A minha porta está sempre aberta, faço duas ou três reuniões por semana com pessoas da equipa." O que lhes diz? "Que não importa quantos anos se tem, é preciso continuar a aprender. Digo-lhes que não quero que estejam sempre ali, que sejam arrumadores para sempre. Quero que aprendam o mais que puderem para crescerem e chegarem a gerentes ou saírem dali e conseguirem um emprego melhor. Esta é uma boa escola."

Gesticula quando se entusiasma com uma ideia, talheres esquecidos nas mãos. Conta que o pai veio aqui parar por acaso, a acompanhar um sócio, e apaixonou-se por Lisboa. "Começou logo a ver como podia investir - passou pelas cassetes de vídeo, máquinas de vending, imobiliário, até chegar aos cinemas." Desde essa altura, o negócio deu uma volta de 180 graus.
"O filme até pode ser bom, mas no final, o cinema é um negócio e sem público não funciona"

À frente da empresa da família em Portugal desde 2004, Eyal diz que o investimento do Cinema City no país em 12 anos ultrapassa os 30 milhões de euros - construir um multiplex serão cinco a oito milhões. Se contar os negócios todos em Portugal, em que se inclui o imobiliário, ultrapassa os 200 milhões. O ritmo nunca abrandou, apesar de os anos de crise não terem sido fáceis - entre 2010 e o ano passado, o número de espectadores em Portugal caiu quase 30%, de 17 milhões de bilhetes vendidos para menos de 13 milhões. O mercado israelita compensou: passou de nove milhões para perto de 16 milhões.

Em Israel, a família Edery e os sócios - o Banco de Investimento de Israel e a Shamrock Holdings, braço financeiro da família Disney, entre outros - dominam 40% do mercado de exibição e distribuição cinematográfica e gerem a United King Films, o maior investidor privado de cinema em Israel, que produz cerca de 15 filmes por ano. "A família não é pequena; temos de ter dimensão para cada um poder tomar conta de uma parte do negócio." Ri-se.

Eyal tem passaporte francês e israelita e residência em Portugal (os filhos têm as três nacionalidades). Tem família espalhada por França, Israel, Marrocos, Estados Unidos, Gibraltar (onde a mãe, francesa, e o pai se conheceram), Canadá, Venezuela e Austrália. Diz que este é um bom país para viver - "em Israel o ritmo é muito mais stressante" - e reconhece nos portugueses uma grande qualidade: a disponibilidade para sair à procura de uma vida melhor. "Nisso somos parecidos. Saímos, vemos coisas novas, outros olhares, outras formas de fazer e quando voltamos trazemos tudo isso. E é muito bom porque ajuda o país a crescer." Verdadeiros empecilhos? Os impostos e as regras "que mudam a cada segunda-feira", a burocracia excessiva e a rigidez das leis do trabalho.

Vai explicando o que faz enquanto os pratos são retirados e decidimos ir, salto de cavalo sobre a sobremesa, diretos para o café. Entre os cerca de 350 filmes que se estreiam por ano, escolhe uns 200 para as 50 salas do Cinema City - incluindo as de Alvalade, um dos últimos cinemas de rua do país. O critério, além da variedade e dos blockbusters óbvios, é aquilo que acredita que pode dar boas experiências aos clientes de cada local. O lado pior? "É ter de sentar-me à frente de alguém e dizer que o filme dele não vai vender. É muito difícil porque o realizador põe ali a vida inteira durante cinco ou dez anos. O filme até pode ser bom, mas no final, o cinema é um negócio e sem público não funciona."

A receita de bilheteira é repartida a meio entre o distribuidor - que investe entre cinco mil e 300 mil euros para comprar os direitos e outro tanto para garantir a distribuição do filme às salas, à televisão, DVD, etc. - e o cinema. A quantidade de entradas vendidas depende em absoluto do filme. "Pode variar entre mil e 15 mil bilhetes."

Um gole na água antes de sairmos para o Largo Luís de Camões e uma última pergunta sobre os planos de expansão do grupo. "Abrir só para bloquear a concorrência não é connosco - queremos manter a qualidade. Mas também queremos crescer." E enfim a confissão: "Estamos a analisar a entrada em dois projetos em Portugal, mas ainda é cedo para dizer mais."

Flores do Bairro - Bairro Alto Hotel

Água Luso

Água das Pedras

Imperial

Requeijão de ovelha com pimentos

Creme de couve-flor

Peixe à Mercado Bairro Alto Hotel

Arroz de berbigão e chips de corvina

Cafés

Total: 56,5 euros
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