Israel, nuclear e pós-Obama

Duas importantes informações sobre Israel nos últimos dias: a assinatura de um acordo com os Estados Unidos para um pacote de ajuda militar de 38 mil milhões de dólares no espaço de dez anos e a revelação de que o arsenal nuclear israelita é de 200 ogivas. E se num caso foi um anúncio do Pentágono, já no segundo tratou-se de uma violação feita por hackers de um e-mail de 2015 de Powell, antigo chefe do Estado-Maior americano e ex-secretário de Estado.
Por serem números interessantes, e por dizerem respeito a Israel, ambas as informações surgiram nos jornais mundo fora. Sobre o pacote de ajuda, não faltou quem o classificasse como "sem precedentes" (Washington Post) ou "recorde" (Aljazeera). No que diz respeito à capacidade nuclear israelita, os títulos mais chamativos foram os dedicados aos "200 mísseis apontados a Teerão".
Mas importante e interessante não significam novidade. A ajuda militar americana ronda de há muito os 3,1 mil milhões de dólares anuais com possibilidade de reforço (e é superior à dos outros nove grandes recipientes juntos). Aliás, o novo pacote estipula que os israelitas abdicam de pressionar o Congresso para obter verba extra exceto se houver guerra. E quanto ao arsenal nuclear, que Israel insiste em não confirmar, deixou de ser um segredo depois das revelações do engenheiro Vanunu ao The Sunday Times há 30 anos e da gafe em 2006 do então primeiro-ministro Olmert numa entrevista a uma TV alemã. Mesmo o número de ogivas referido por Powell, num comentário sobre o discurso do primeiro-ministro Netanyahu no Congresso, não anda longe dos "150 ou mais"referidos numa palestra em 2008 por Carter. Aliás, numa entrevista em 2012 à Time, o antigo presidente americano voltou ao tema especulando sobre "300". A Federação dos Cientistas Americanos e o SIPRI em Estocolmo costumam estimar em 80 as ogivas israelitas, num quadro global em que se destacam as 7000 tanto de americanos como de russos. E numa nota o instituto sueco até diz que Israel terá plutónio para "100 a 200 ogivas".
De tudo isto, emergem dois pontos-chave: que Obama antes de deixar a presidência confirma a aliança estratégica entre a América e Israel que dura pelo menos há meio século, não confundindo o interesse nacional com a má relação pessoal com Netanyahu. E que Israel, embora contando com a solidariedade americana, mantém um arsenal nuclear próprio que funciona como advertência a qualquer inimigo mesmo que, por absurdo, os Estados Unidos lhe virassem costas. Mas do que se sabe de Trump e de Hillary, o sucessor de Obama será como sempre pró-israelita, mesmo que não seja certo que o republicano apoie a solução de dois Estados (sonho dos palestinianos) ou que seja contra novos colonatos judaicos na Cisjordânia, como é o caso da candidata democrata.

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