sexta-feira, 23 de setembro de 2016

“Essa versão do pergaminho de Ein Gedi é 100% idêntica à que tem sido usada por séculos. Para nós, é absolutamente incrível que, em 2 mil anos, o texto não tenha sido alterado”, comemora Emmanuel Tov, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, que também assina o artigo.


Ciência e Saúde

Técnica digital desvenda pergaminho de 2 mil anos encontrado em Israel

Sem desenrolar o documento - o que causaria sua destruição -, os pesquisadores descobriram que se trata do mais antigo exemplar do Levítico, obra que integra a Bíblia e a Torá
Paloma Oliveto
O pergaminho de Ein Gedi desenrolado digitalmente e na forma como foi descoberto (à direita): texto igual ao encontrado hoje nos livros sagrados
O pergaminho de Ein Gedi desenrolado digitalmente e na forma como foi descoberto (à direita): texto igual ao encontrado hoje nos livros sagrados


No fim da década de 1970, Sefi Porath fazia escavações na sinagoga de Ein Gedi, a 40km das famosas cavernas de Qumran, em Israel, quando se deparou com um dos maiores tesouros da arqueologia bíblica. Dentro de uma arca, estava um rolinho muito danificado pelo fogo. Apesar da fragilidade do material, ele sabia se tratar de um pergaminho — folha feita de couro animal — tão precioso quanto os do Mar Morto. Contudo, ninguém ousaria abri-lo, pois qualquer manipulação poderia destruir a preciosidade — os primeiros exames de datação indicaram que o documento tinha cerca de 1,5 mil anos.


O manuscrito de Ein Gedi jamais foi desenrolado. Contudo, os cientistas sabem que ele é o mais antigo exemplar do Levítico, obra que compõe o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Torá judaica e da Bíblia cristã). Graças a uma tecnologia avançada de imagem, foi possível abrir o pergaminho sem colocar as mãos nele. “O que aconteceu com o manuscrito foi uma prova do poder da era digital. Nunca toquei o pergaminho”, afirma Brent Sealers, programador e professor da Universidade de Kentucky, responsável pelo feito. Ele descreveu o resultado do trabalho na revista Science Advances. A tecnologia também indicou que o documento é mais antigo que se imaginava: tem entre 1,7 mil e 1,8 mil anos.

O método empregado por Sealers é uma combinação entre a microtomografia de raios X — que obtém imagens tridimensionais de objetos a partir de 5mm — e o trabalho de um software desenvolvido pelo cientista para visualizar evidências de escrita em uma superfície volumétrica. Trata-se de um processo complexo, pois o pergaminho enrolado não é plano como a folha de um livro. “Apesar de dizermos ‘superfície’ para nos referir às folhas do manuscrito, na verdade, estamos falando de uma camada que está por baixo de muitas outras em um objeto enrolado. Então, só é possível ver o que está impresso graças a nosso software, que faz esse trabalho de ‘desenrolamento virtual’”, explica.

O pesquisador conta que, primeiro, a máquina de microtomografia é preparada para escanear as folhas e a tinta gravada no pergaminho. Depois, os dados são trabalhados por um algoritmo, que os organiza de forma a criar uma superfície plana. O resultado ainda passa por vários processos para garantir a qualidade da imagem e a ordem correta da escrita.

Seguindo esses passos, os cientistas da Universidade de Kentucky conseguiram revelar duas colunas de um texto em hebraico, que contêm linhas legíveis, letras e espaços. Sem precisar encostar um dedo na antiguidade — aliás, eles nem o viram ao vivo, pois o escaneamento foi realizado em Israel —, descobriram que aquele toquinho queimado era, de fato, o livro que traz o conjunto de leis ritualísticas dos levitas, os antigos sacerdotes das 12 tribos de Judá.

Idêntica

No ano passado, a equipe de Sealers já havia divulgado resultados preliminares, mostrando que havia trechos do Levítico no pergaminho. Agora, porém, foi possível identificar, linha a linha, o conteúdo do pergaminho. As colunas escritas trazem o primeiro capítulo do livro, tal qual podem ser lidas hoje. “Essa versão do pergaminho de Ein Gedi é 100% idêntica à que tem sido usada por séculos. Para nós, é absolutamente incrível que, em 2 mil anos, o texto não tenha sido alterado”, comemora Emmanuel Tov, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, que também assina o artigo.
Essa não é a primeira vez que Sealers traz à luz o conteúdo de documentos preciosos. Ele, na verdade, é um especialista em revelar antiguidades usando tecnologia moderna. O pesquisador conta que começou a se interessar por textos danificados quando foi apresentado a um conjunto de pergaminhos romanos escavados em Herculano, cidade soterrada com Pompeia durante a erupção do Vesúvio, em 79 d.C. Ele conta que a antiguidade estava tão estragada que parecia mais um toco de carvão. Contudo, a tomografia foi capaz de revelar seu interior, mostrando para Sealers que ele tinha em mão o potencial de recuperar virtualmente tesouros do passado.


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