segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Numa reunião de emergência do Gabinete, o governo aprovou a detenção indiscriminada de apoiadores do EI. Netanyahu instruiu ministros a tomarem ações legais contra pessoas que tenham expressado apoio à ação. Seu tom foi agravado por aliados: a vice-ministra das Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, afirmou que o governo “deveria ter controle total do sistema de educação em Jerusalém Oriental” para evitar a exposição aos jovens de uma cultura de martírio. Já o chefe da Defesa, Avigdor Lieberman, afirmou que o ataque foi realizado “pelo mero fato de sermos judeus e vivermos em Israel”. — Não há outra razão e nem precisamos procurar desculpas. A causa não foram assentamentos judaicos nem negociações, mas um ataque inspirado pelo EI — assegurou. O ministro da Construção, Yoav Galant, garantiu que é necessária uma resposta firme: — O preço deve ser demolir casas, expulsar famílias, mesmo se forem israelenses, e revogar a cidadania de envolvidos — atacou. Nesta semana, o Gabinete de Netanyahu se uniu em peso para defender o soldado Elor Azaria, condenado por homicídio culposo após matar com um tiro na cabeça um palestino ferido e imobilizado, após este ter esfaqueado um soldado. O episódio foi flagrado em vídeo, e Azaria pode agora pegar 20 anos de prisão. O premier pediu que ele recebesse perdão.


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Israel endurece medidas contra palestinos após ataque a soldados

Por O GLOBO
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Autor. Fadi foi morto FOTO: MAHMOUD ILLEAN/AP
JERUSALÉM - A investida de um caminhão dirigido por um palestino contra soldados numa movimentada avenida em Jerusalém, matando ao menos quatro jovens militares e ferindo outras 17 pessoas ontem, foi o primeiro ataque do gênero apontado diretamente pelo governo israelense como tendo um possível vínculo com o Estado Islâmico (EI). Ao anunciarem um endurecimento de ações retaliatórias contra palestinos ligados a acusados de terrorismo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu Gabinete advertiram que o ataque teria sido inspirado nos recentes atentados com caminhões em Nice e Berlim, reivindicados pelo grupo terrorista. Este foi o mais letal ataque em Jerusalém em meses.
O caminhão avançou sobre um grupo de jovens soldados israelenses fora de serviço na manhã de ontem, na avenida Armon Hanatziv. Eles faziam um passeio turístico e estavam na primeira parada de seu ônibus para apreciar a vista da Cidade Velha de Jerusalém. Imagens mostram o motorista acelerando contra os militares, antes de ser baleado e dar marcha à ré para fazer uma nova investida. Só parou quando outros soldados foram capazes de matá-lo a tiros. Impactos de balas eram visíveis no para-brisa do veículo.
— Os soldados que estavam na área começaram a atirar no caminhão. De primeira, eles não conseguiram matá-lo. Ele engatou a marcha à ré. Nesse momento, os jovens gritavam e os instrutores disseram para se esconderem atrás de paredes de pedra. Depois que o atacante foi incapacitado, os paramédicos chegaram — contou Leah Schreiber, uma das instrutoras que testemunhou o ataque.
Os soldados mortos são um oficial e três cadetes — três mulheres e um homem: Yael Yekutiel, de 20 anos; Shir Hajaj, 22; Shira Tzur, 20; e Erez Orbach, 20. Os dois últimos tinham cidadania americana. O motorista foi identificado como Fadi Qunbar, um ex-prisioneiro de 28 anos que vivia em um bairro de Jerusalém Oriental perto do local do ataque, era casado e tinha quatro filhos.
— Conhecemos a identidade do atacante que, segundo todas as indicações, apoia o Estado Islâmico — garantiu o premier, ao visitar o local do ataque. — Sabemos que os atentados se sucedem, da França a Berlim, e agora em Jerusalém, e é provável que haja uma ligação entre eles.
‘Expulsar, demolir, revogar cidadania’
Como em casos de ataques semelhantes, a casa de Qunbar foi vasculhada logo após o atentado, e o distrito, isolado. Nove pessoas foram presas, incluindo cinco da família do suspeito — o pai e a irmã haviam comemorado o ataque em declarações à imprensa palestina. Sua residência acabou tendo ordem de demolição expedida, e o governo decidiu que não entregará seu corpo.
O chefe de polícia Roni Alsheich não descarta que o palestino tenha sido motivado pelo ataque ao mercado natalino em Berlim, que deixou 12 mortos em dezembro, ou pela carnificina que matou 84 pessoas em Nice, em julho.
— É certamente possível ser influenciado assistindo à TV, mas é difícil entrar na cabeça dos indivíduos para determinar sua motivação.
Trinta e cinco israelenses já foram mortos em uma onda de ataques com facas, revólveres e atropelamentos por palestinos ou árabes-israelenses desde outubro de 2015. Mais de 200 palestinos — a maioria agressores, segundo Israel — também morreram no período.
O ataque de ontem foi condenado por toda a comunidade internacional, como os EUA, a ONU e o Brasil. O Itamaraty destacou que a investida com o caminhão se tratou de um ato terrorista. Em Gaza, o grupo radical Hamas comemorou, dizendo “abençoar a operação heroica que resiste à ocupação israelense, para forçá-la a parar com seus crimes e violações contra o povo” palestino.
Numa reunião de emergência do Gabinete, o governo aprovou a detenção indiscriminada de apoiadores do EI. Netanyahu instruiu ministros a tomarem ações legais contra pessoas que tenham expressado apoio à ação. Seu tom foi agravado por aliados: a vice-ministra das Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, afirmou que o governo “deveria ter controle total do sistema de educação em Jerusalém Oriental” para evitar a exposição aos jovens de uma cultura de martírio. Já o chefe da Defesa, Avigdor Lieberman, afirmou que o ataque foi realizado “pelo mero fato de sermos judeus e vivermos em Israel”.
— Não há outra razão e nem precisamos procurar desculpas. A causa não foram assentamentos judaicos nem negociações, mas um ataque inspirado pelo EI — assegurou.
O ministro da Construção, Yoav Galant, garantiu que é necessária uma resposta firme:
— O preço deve ser demolir casas, expulsar famílias, mesmo se forem israelenses, e revogar a cidadania de envolvidos — atacou.
Nesta semana, o Gabinete de Netanyahu se uniu em peso para defender o soldado Elor Azaria, condenado por homicídio culposo após matar com um tiro na cabeça um palestino ferido e imobilizado, após este ter esfaqueado um soldado. O episódio foi flagrado em vídeo, e Azaria pode agora pegar 20 anos de prisão. O premier pediu que ele recebesse perdão.
O caso foi lembrado ontem, com soldados atribuindo à condenação uma suposta hesitação em deter o terrorista a tempo de evitar uma chacina.
— Teria sido muito mais fácil (reagir ao ataque com o caminhão) se eu não soubesse que seria possível que me indiciassem algum dia. Não quero usar o nome de Elor Azaria, mas não tenho dúvida de que isto teve impacto — afirmou Eitan Rund, guia e um dos que atiraram contra o agressor.
Após a detenção de várias pessoas em protestos durante o julgamento de Azaria, o país se dividiu: conservadores defendem o perdão, enquanto a maioria dos opositores acha a punição justa.
“Um perdão só confirmará o que as pessoas aprenderam com os colonizadores em Hebron, com as insinuações de Netanyahu e com a demissão do ex-ministro da Defesa Moshe Ya’alon (crítico da expansão de assentamentos): ‘Não se preocupem, podem continuar! Somos a lei!’”, ironizou a colunista do “Haaretz” Iris Leal.
O ataque de ontem vem em um momento delicado para Israel diante da comunidade internacional, condenado até por aliados próximos pela expansão da ocupação em territórios palestinos. Recentemente, o país viu o Conselho de Segurança da ONU passar uma resolução histórica exigindo o fim da construção de assentamentos e um esforço pela desocupação das colônias em territórios ocupados. Com a abstenção dos EUA, a moção fez Netanyahu anunciar medidas retaliatórias contra todos os países envolvidos no voto unânime.